Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

CPI: a novela do homem brasileiro

A princípio a “trama” não me interessou pela falta de mulheres no elenco, o que me deixou muito indignada

Alice Ferraz, Moda

06 de junho de 2021 | 15h00

Sou uma noveleira assumida, daquelas que se envolve, sabe o nome dos personagens, torce e sofre. Sempre enxerguei nas tramas dos autores retratos da nossa sociedade, ou parte dela pelo menos. Nos últimos tempos, apeguei-me a uma “novela” nova e tenho apenas olhos para ela. Ocorre entre terças e quintas e tem reprises por toda semana nos mais distintos veículos de comunicação: a CPI

A princípio a “trama” não me interessou pela falta de mulheres no elenco, o que me deixou muito indignada – pensei até em não assistir, prevendo danos maiores ao meu sistema nervoso. Apenas parlamentares homens conduzem a CPI em dezoito vagas de titulares e suplentes. Mesmo assim, avancei e, dia após dia, mais do que a política em si e até minha própria apuração pessoal de quem está certo ou errado, comecei a enxergar o espelho do comportamento de um tempo e, infelizmente, esse tempo é o que vivemos em 2021. 

Meu ângulo de visão tem como base minha própria vivência como mulher, e me entristece concluir o quão pouco avançamos quanto ao tratamento igualitário entre homens e mulheres. Vi nessa CPI poucas vozes femininas sendo chamadas, o que já me causa desconforto por não me sentir representada e, portanto, ouvida. 

Assisti a mulheres serem tratadas de forma aparentemente “paternal”, com frases como: “a senhora veja como fala, pois não quero ser deselegante com uma senhora”. Sermos tratadas dessa forma pode parecer um cuidado, mas não é. Falamos como mulheres, com voz e emoção de mulheres, e essa maneira de falar pode trazer um conteúdo relevante, independente da forma feminina que embala a narrativa. 

Assisti a mulheres terem suas falas cortadas sem conseguir concluir uma frase. Sem agressividade suficiente para se impor. Mas e se tivessem a tal agressividade? Seriam, certamente, chamadas de histéricas. Também assisti a mulheres colocando-se com firmeza e assertividade, conseguindo que forma e conteúdo se encontrassem na medida desse tempo desigualitário para que fossem ouvidas. 

Concordando ou não com seus pensamentos, me senti aliviada. Não existirá evolução se não nos fizermos representadas e ouvidas – e quem sabe a partir desse espaço de escuta, compreendidas.

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