Horst P. Horst / Condé Nast Archive
Horst P. Horst / Condé Nast Archive

Cotidianos ganham importância durante a quarentena

Com as pessoas mais tempo dentro de casa, ambientes do lar se tornam prioridade em reformas e decoração

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 05h00

The Eye Has To Travel (O Olhar Precisa Viajar, em tradução livre) é a frase que dá nome ao documentário sobre a espetacular carreira de Diana Vreeland (1903-1989), uma das editoras de moda mais importantes do meio, que fez seu nome trabalhando para as revistas Harper’s Bazaar e Vogue americanas. Vreeland foi visionária e moldou o estilo dos anos 1950-60, sendo conhecida principalmente por sua estética arrojada e maximalista.

Vreeland fez questão de levar também para a sua casa esse estilo tão icônico. Além do talento para a moda, a editora é lembrada por ter vivido em um apartamento em Nova York, cujas salas eram forradas de vermelho, do piso às paredes. Espaços enfeitados com uma profusão de estampas e objetos que, sem dúvidas, faziam os olhos de qualquer morador ou visitante viajarem sem sair do lugar.

Leia Também

A roupa da casa

A roupa da casa

Da mesma forma, Coco Chanel (1883-1971) vestiu seu apartamento na rue Cambon, em Paris. Entre as prateleiras repletas de livros, biombos adornados com motivos chineses e imagens das icônicas camélias, Chanel tinha em sua casa uma estátua de leão no estilo veneziano. Leonina audaciosa, Mademoiselle tinha esse como seu animal de força. Ele estava presente em sua casa e também em seu trabalho – a imagem do “rei da selva” está gravada nos botões de seus tailleurs de tweed.

A relação entre morar e trabalhar merece destaque quando o assunto é a vida de Coco Chanel. A francesa vivia no andar superior do prédio onde estava localizada sua butique, bem como o espaço de apresentação das novas coleções e também as salas para provas das peças de alta-costura. Uma espécie de “home office” à la Chanel, sempre à frente do seu tempo.

“A casa deixou de ser apenas o abrigo noturno e passou a ser o espaço de trabalho, de lazer e alimentação”, comentam Sig Bergamin e Murilo Lomas, nomes da arquitetura e design de interiores. “Hoje, estamos 24 h por dia em casa. É uma ruptura muito grande na rotina e a casa precisa se reinventar para atender a esses novos tempos e usos. A relação mudou, os desejos e prioridades também mudarão”, afirmam. Cadeiras, poltronas e sofás foram os primeiros itens pelos quais seus clientes começaram a procurar mudanças. “A arte também está nessa lista de busca, pois consegue transformar o ambiente, trazer uma nova emoção para o espaço”, diz Sig.

A cozinha é um dos espaços mais usados nessa quarentena e, nesse sentido, a mesa de refeições ganha destaque. “A procura pela louça do dia a dia cresceu, pois a vontade de valorizar o momento das refeições ganhou novo sentido”, explica a artista plástica e designer Tania Bulhões, há 30 anos no mercado de casa. “A brasileira tem valorizado mais a marca nacional e nosso produto é autoral e tem na pintura da natureza brasileira inspiração constante.” Tania estava com seu e-commerce preparado para a nova demanda que aconteceu. “As pessoas querem trazer aconchego e aromas para dentro de casa. Com isso, nossas velas perfumadas têm tido grande procura”, diz.

Adriana Trussardi, cofundadora da Trousseau, marca que atua há 25 anos no segmento de cama, mesa e banho, vê o foco central desse momento na procura pela roupa de cama, lençóis e travesseiros. “Os quartos viraram protagonistas da casa. Usamos eles como home office; crianças e jovens estudam em seus quartos e, muitas vezes, fazemos as refeições em mesinhas ali mesmo.”

“Crescemos 400% nosso e-commerce durante a pandemia”, diz Monica Frajzinger, um dos nomes à frente da Paola da Vinci, marca de moda infantil e de peças para a casa, fundada em 1978. Além disso, a empresária observa que o tempo de isolamento criou novas demandas do mercado. “Como as pessoas estão mais em casa, estamos vendo uma mudança no comportamento de consumo do nosso e-commerce. Nossos clientes estão comprando aquilo que realmente se identificam e necessitam. Um consumo consciente, em linha com a mudança de comportamento que veio para ficar.”

Na visão de Claudia Issa, designer e fundadora da Konsepta, as pessoas estão tendo a consciência da importância de cada objeto escolhido para suas casas. “Uma peça conta a própria história da dona da casa, marca a sua particularidade, seu território e carrega a energia pessoal”, diz Claudia, que tem visto a procura por suas cerâmicas aumentar e traduz isso como desejo de criar espaços que tragam conforto emocional para que mesmo um pequeno espaço de home office se transforme em um lugar que carregue a personalidade do morador.

A relação da moda com a decoração não é nova e não poderia ser diferente, afinal, ambas compartilham características similares. As duas têm seu lado prático, mas também lidam com aspectos estéticos e emocionais da psique humana. Nessa nova relação com a casa, vesti-la à sua moda é o caminho para se reencontrar a cada volta ao lar.

Tudo o que sabemos sobre:
modaarquiteturadecoração

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.