Victor Hugo Mattos
‘Cálida’: Crochê, macramê e tricô de Victor Hugo Mattos aquecem temporada da SPFW Victor Hugo Mattos

Com aspiração digital, temporada da SPFW transborda afetividade

Em edição desafiadora, semana de moda de São Paulo e marcas refletem sobre si mesmas

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 05h00

Terminou ontem, 8, a primeira edição totalmente digital da Semana de Moda de São Paulo (SPFW). O público pode assistir nas redes sociais vídeos com diversos formatos e até ver comentários de Arlindo Grund, apresentador do Esquadrão da Moda e figura recorrente na fila A dos desfiles presenciais. 

A transmissão digital já ocorria desde 2001, entretanto a pandemia do novo coronavírus forçou as marcas olharem para o online de maneira mais estratégica. As estilistas Fernanda Niemeyer e Renata Alhadeff, da A. Niemeyer, contaram que a grife precisou criar um e-commerce. André Namitala, da Handred, disse que já tinha uma loja virtual, mas precisou ampliar essa atuação. “As semanas de moda estão em um primeiro estágio de migração para o digital”, avalia o consultor André Carvalhal. “Ainda não pudemos observar uma semana de moda que conseguisse favorecer interações, transações, experiências imersivas. O lado bom foi ver as marcas focando mais em suas verdades, sua essência, história.” Paulo Borges, fundador e diretor criativo da SPFW, abordou essa questão nas entradas que fez ao vivo para conversar com os designers. “Estamos nesse momento 100% digital, mas não deixamos de ser afetivos.”

Os sentimentos estavam à flor da pele, dos filmes e das criações. “Uma abertura maior para criatividade, com roupas mais impactantes ou que traduzam a alma da marca”, afirmou Camila Yahn, editora-chefe do portal FFW. “Menos influências internacionais, mais identidade brasileira. O que pode apontar para o fortalecimento de uma moda mais livre e própria”, apontou Carvalhal.

Modem, Ponto Firme, A. Niemeyer, Amir Slama e LED reaproveitaram peças ou tecidos de coleções anteriores. “Sem medo de que as pessoas dissessem ‘é a mesma coisa’. As pessoas estão comprando menos, tem menos matéria-prima, isso propõe uma reflexão sobre para quê serve a moda”, disse Iza Dezon, fundadora da agência de tendências Dezon. 

Cota racial

Na primeira edição da SPFW a ter a obrigatoriedade de 50% dos modelos serem afrodescendentes, indígenas ou asiáticos, João Pimenta exibiu um desfile com personagens totalmente escondidos por camadas de tecidos e com máscaras que cobriam o rosto. “Eu quis não mostrar a pessoa que estivesse usando a roupa, eu quis neutralizar para que qualquer pessoa pudesse se ver dentro da minha roupa. Você não consegue perceber se a pessoa é homem ou mulher, se ela é branca ou preta. A moda é um veículo muito importante, mas é separatista, gordofóbica, racista”, explicou o estilista. 

 

Vozes da moda

João Pimenta mostrou toda a força de sua alfaiataria em participação na SPFW, na sexta, 6. O estilista apostou em máscaras com bordados e sobreposições de casacos, camisas e vestidos. 


A LED levou para a SPFW, na sexta, 6, a coleção ‘Brasileira’ com crochê e camisetas com frases-manifesto. As peças em algodão, viscose e linho, exploram as cores da bandeira nacional.

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'Precisamos de roupas que falem de outras coisas', diz Ronaldo Fraga

Em entrevista ao 'Estadão, estilista discorre sobre o fashion filme que vai apresentar neste domingo, 8, no encerramento da SPFW

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

"Já tem tempo que não precisamos mais fazer roupa, já tem roupa demais no mundo”, afirmou Ronaldo Fraga, que exibirá um filme hoje, 8, às 21h30, na São Paulo Fashion Week (SPFW)

Será o lançamento de uma coleção de histórias, que também tem peças do vestuário. “Precisamos de roupas que falem de outras coisas”, diz o estilista mineiro que se inspirou em sua própria carreira para a apresentação que fará nesta temporada. Em 2001, o designer promoveu o desfile “Quem matou Zuzu Angel”, que foi um marco em sua trajetória e na semana de moda da capital paulista. Agora, ele revisita o tema em uma edição que celebra os 25 anos do evento. “Eu acreditava que a história de Zuzu e da ditadura no Brasil era página virada, que não voltaríamos a ver esses fantasmas. Cá estamos, 20 anos depois, o carniceiro Ustra sendo aclamado pelo governo atual, grande parte da população brasileira vivendo uma amnésia, uma apatia absoluta. Mais do que nunca, a moda é mais do que roupa. A resistência maior deste país ainda está na cultura”, disse Ronaldo Fraga em entrevista ao Estadão

A estilista Zuzu Angel ficou conhecida internacionalmente por sua busca pelo filho Stuart, que foi assassinado pelo regime militar. Entretanto, as criações da brasileira também são referência na moda. Fraga conta que Zuzu foi pioneira em incorporar temas brasileiros nas roupas e a usar matéria-prima vinda do Nordeste. “Foi a primeira a usar renda do Brasil, o que na época provocou rechaço, deboche do mainstream da moda que via isso como algo cafona, no entanto ela insistiu.” Esse espírito desbravador de Angel também será visto na SPFW. “Não é um relançamento, é outra coleção”, afirmou. 

As peças trarão renda renascença da Paraíba, produzida em iniciativa do designer em parceria com rendeiras do Cariri. Os bordados foram feitos no projeto Minha Casa em Mim, que Ronaldo coordena em 13 comunidades atingidas pelo rompimento da barragem da Samarco. Além de roupas e histórias, a apresentação do estilista trará objetos de decoração que também foram desenvolvidos nessa iniciativa social.

 

Marca estreia na SPFW com vídeo de terror solar

Renata Buzzo lançou seus drapeados, na sexta, 6, em filme com ares do gênero do cinema folk horror. Estreante na SPFW, a designer é representante do slow fashion, faz peças numeradas, veganas e lixo zero.

 

Programação do dia

A coleção Tela, da grife Aluf, chega hoje, 8, às 17h, à SPFW, em apresentação com tecnologia 3D. A marca traz tecidos crus, tons neutros, tramas de linho e detalhes com listras.

 

Homenageando a tia-avó, Isaac Silva exibe hoje, 8, a coleção ‘Flores para Iemanjá. Peças desenhadas para todos os corpos e gêneros vão ser desfiladas pela equipe da loja da marca.

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Fashion filme: dança e poesia dão o passo e tom para vídeos na SPFW

Semana de moda de São Paulo e roupas ganham força e impulso com movimentos coreografados

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 05h00

O novo coronavírus causou o cancelamento da temporada de abril da São Paulo Fashion Week (SPFW), mas os trabalhos que vêm sendo apresentados nesta semana no formato chamado de fashion filme provam que a pandemia não imobilizou o mercado da moda. Sem a possibilidade de encher salas de desfiles e colocar modelos para cruzar passarelas, os estilistas encontraram na dança um caminho para dar movimento às roupas e ao setor.

A coreografia de Bia Marques transformou os biquínis, maiôs e peças fluidas da grife Lenny Niemeyer em pura poesia. “Por baixo de cada peça de roupa existe um corpo com infinitas possibilidades de expressão”, disse a coreógrafa que coordenou as modelos do projeto divulgado na quarta-feira, 4.

Luisa Arraes e Caio Blat, que dirigiram a apresentação da marca Isabela Capeto, preferiram convidar bailarinos para executar a sequência rítmica assinada por Amália Lima. “A alegria e a exuberância da Isabela estão ali”, afirmou Luisa. Aliás, a estilista participa de fato das imagens e entra na roda de dança que começa em seu apartamento, no Rio de Janeiro, e vai terminar no Aterro do Flamengo. “Eu estava com medo, porque eu nunca tinha feito um filme. Mas a vida mudou, não adianta eu querer fazer um desfile como se fosse em uma passarela”, explicou Isabela.

A movimentação dinâmica chama atenção. No entanto, a obra foi inspirada na rotina de Capeto na quarentena e nas peças desenhadas. “Criamos uma ‘historinha’ para as roupas”, disse Caio. “É um limite muito tênue, porque é um vídeo publicitário. Ao mesmo tempo é um vídeo de arte, de moda”, concluiu.

 

Alexandre Herchcovitch

Para celebrar seus 50 anos, Alexandre Herchcovitch exibiu na quinta, 5, um minidocumentário sobre seis criações. Uma das peças foi o casaco de látex inspirado em Marilyn Monroe, incompreendido na época. 

 

Destaques da programação da SPFW neste sábado

 A grife Martins marca presença neste sábado, 7, na semana de moda de São Paulo. A maioria das suas peças vem em tamanho único, mas como são produzidas em silhueta oversized podem ser usadas por diferentes tipos de pessoas.

 

A Modem apresenta neste sábado, 7, às 16h30, um filme que reflete sobre o tempo. Peças de coleções anteriores da marca foram usadas para compor 15 looks que trazem estética industrial e alfaiataria desconstruída.

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Intervenção artística mistura fotos da SPFW com paisagem urbana

Painéis com imagens do acervo de 25 anos da semana de moda foram fixados com a técnica lambe-lambe em ruas e avenidas de São Paulo

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2020 | 05h00

O fotógrafo e artista plástico Felipe Morozini imergiu no acervo de 500 mil fotos e vídeos da Semana de Moda de São Paulo (SPFW) com a missão de escolher registros que mostrassem a transversalidade da moda em diversas áreas criativas – design, maquiagem, cenografia, entre outras. O resultado desse mergulho em 25 anos de história é a intervenção artística Moda Ocupação Outros Olhares, composta por dez imagens feitas a partir de colagem digital.

Os painéis de dez metros de largura por dois de altura foram fixados com a técnica lambe-lambe e se incorporam à paisagem da capital paulista em ruas e avenidas, como a Augusta, Consolação, Vergueiro, Liberdade e Rebouças. “Eles estão dialogando com outros artistas da cidade nessa escala grandiosa”, disse Morozini.

Mais uma vez, esta edição da semana de moda vai para o espaço público durante a pandemia do novo coronavírus. “Não é um convite para as pessoas virem para a rua, mas é uma maneira de integrar a arte na rotina daqueles que não têm o privilégio de ficar em casa”, afirma o fotógrafo. Fazem parte das obras QR Codes que dão acesso à transmissão digital.

Outro tema latente da entrada do evento para a fase adulta é a diversidade. Tanto que nesta edição começou a vigorar a cota que obriga que 50% dos modelos das apresentações devem ser afrodescendentes, indígenas ou asiáticos. É possível perceber como as preocupações com a equidade racial e de gênero permearam a concepção dessa intervenção. Assim como Paulo Borges, fundador e diretor criativo da SPFW, Felipe Morozini faz questão de dialogar sobre esses assuntos. “Anos atrás não se falava dos assuntos que se fala hoje. Ver um painel que chama Transformar, com oito modelos trans, é de um poder tão grande, ver essas pessoas enormes na rua”, disse o artista plástico.

Para Felipe, mais do que ter a intenção de abordar questões que podem ter sido historicamente negligenciadas, existe a procura por reparação. “Se alguma injustiça foi feita no passado por alguma marca ou por algum estilista, se alguém ficou escondido, agora um artista tenta colocar todos em um lugar que é a rua”, afirma, sobre a iniciativa. “É muito honesto. É emocionante.”

Comemoração de 25 anos

A organização da semana de moda mais importante da América Latina escolheu celebrar a “força do verbo” neste aniversário. Seguindo essa temática, as instalações fotográficas chamam-se Construir, Transformar, Conectar, Ocupar, Provocar, Inspirar, Reconhecer, Criar, Acreditar e Manifestar

 

Programação da SPFW nesta sexta, 6

Em desfile-filme, a Handred apresenta na SPFW nesta sexta, 6, às 20h30, coleção inspirada em Copacabana, bairro que abriga o ateliê da grife. As peças atemporais são confeccionadas em tecidos como seda e linho. 

 

Juliana Jabour exibe a coleção Verão 21 às 19h30. A estilista volta à semana de moda da capital paulista com apoio da marca de bonés New Era, que faz cem anos em 2020. Vêm daí as referências ao esporte.

Programe-se:

  • 14h - Lucas Leão
  • 15h - Led
  • 16h - Misci
  • 18h - Renata Buzzo
  • 19h30 - Juliana Jabour
  • 20h30 - Handred
  • 21h30 - João Pimenta

 

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Com projeções, SPFW transforma prédios históricos em passarelas

Até domingo, 8, apresentações de grifes na semana de moda serão exibidas em endereços nas cinco regiões da cidade

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 05h00

A edição da Semana de Moda de São Paulo (SPFW) comemorativa de 25 anos foi para as ruas da cidade em grande estilo. Grande mesmo, no sentido literal da palavra. Além de festival de luzes para marcar o início do evento, os desfiles e as apresentações de 33 marcas serão transmitidos em prédios históricos e centros culturais da capital paulista.

Até domingo, 8, as projeções móveis vão passar por endereços como Mercado Municipal, Copan, Minhocão, Museu da Imigração, Centro Cultural Cidade Tiradentes e Parque do Ibirapuera.

A programação desta temporada começa às 14h, no entanto, as exibições vão ocorrer das 19h à 0h, transmitindo em tempo real o que está agendado para essa faixa de horário e reprisando o que foi divulgado na parte da manhã.

Para o artista visual Alexis Anastasiou, responsável pela direção do projeto, é fundamental ir além de centros comerciais e de locações como o bairro de Pinheiros. “Percorrer todas as cinco regiões da cidade é fundamental para realizar uma intervenção artística urbana.”

Levar a semana de moda para o espaço público é a ideia da iniciativa que foi planejada após o surgimento do novo coronavírus. Segundo os organizadores, a intenção é se aproximar das pessoas em uma edição totalmente virtual em razão da pandemia. “Você não pode tentar esconder, tem que abraçar o problema”, disse o artista visual sobre a estratégia para não deixar o cenário mundial impor limites para a criatividade.

Apesar de as circunstâncias não serem vistas como barreiras, elas não deixaram de direcionar alguns cuidados. Por isso, um caminhão com as estruturas que fazem as projeções vai trafegar pela capital paulista em um circuito de cinco horas, para que as pessoas não se aglomerem para assistir. 

Outro veículo que vai promover a ocupação audiovisual é um triciclo conduzido pelo duo chamado VJ Suave. Ceci Soloaga e Ygor Marotta são especialistas em projetar animações quadro a quadro na superfície urbana, misturando tecnologia com street art.

Para analisar a viabilidade de transformar as estruturas de prédios em passarelas digitais, a SPFW e a grife Relow, das irmãs Renata e Lilly Sarti, lançaram uma coleção, em 15 de outubro, na lateral do Edifício Anchieta, localizado na esquina da Rua Consolação com a Avenida Paulista.

 

Rita Comparato volta à SPFW com a marca Irrita

Estilista que marcou presença na SPFW com a Neon, nos anos 2000, Rita Comparato voltou para o evento na quarta, 4. Dança foi o formato escolhido para dar movimento às peças estampadas da marca Irrita.

 

SPFW traz lançamentos de peças antigas

A. Niemeyer apresenta em fashion film nesta quinta, 5, às 18h, um trabalho que reúne peças antigas e atuais. Assim a marca, que tem 14 anos de história, coloca em prática seu conceito de atemporalidade. A coleção Origem traz uma cartela de cores neutras e modelagens clássicas. Todos os princípios são voltados para inspirar uma relação de consumo mais consciente.

O Ponto Firme lança nesta quinta, 5, às 16h, peças desenvolvidas por ex-alunos do projeto realizado na Penitenciária Adriano Marrey. Os participantes, que agora estão em liberdade, trabalhando com o idealizador Gustavo Silvestre, confeccionaram a coleção com peças reaproveitadas e descarte de tecidos da NK Store. Mais um ponto para a sustentabilidade. 

Apresentações da SPFW nesta quinta

  • 14h - Korshi 01
  • 16h – Ponto Firme
  • 18h – A.Niemeyer
  • 19h30 – Alexandre Herchcovitch
  • 20h30 – Amir Slama
  • 21h30 – Another Place
Tudo o que sabemos sobre:
SPFW [São Paulo Fashion Week]

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SPFW começa edição histórica de 25 anos e institui cota racial

Em meio à pandemia, evento adota formato totalmente virtual e obrigatoriedade de 50% dos modelos serem afrodescendentes, indígenas ou asiáticos

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

É grande a responsabilidade da São Paulo Fashion Week (SPFW) que começa hoje (4). Após o novo coronavírus causar o cancelamento da temporada, que costuma ocorrer em abril, ficou para esta edição o papel de celebrar os 25 anos da semana de moda. A pandemia ainda desafiou o evento, que segue até domingo, 8, a adotar pela primeira vez o formato totalmente virtual com transmissão dos desfiles nas redes sociais. Entretanto, a expectativa subiu depois que a organização instituiu de maneira pioneira uma cota racial. 

A partir desta temporada, 50% dos modelos de cada apresentação devem ser afrodescendentes, indígenas ou asiáticos, com parentesco até segundo grau. 

Apesar de ser uma decisão histórica, a organização escolheu implementá-la sem grandes anúncios. A regra foi incluída no “manual de convívio coletivo”, como chama Paulo Borges, fundador e diretor criativo da SPFW. O documento é enviado antes de cada edição para as marcas participantes. 

No entanto, a novidade rapidamente se tornou assunto. A modelo Camila Simões destaca que a semana de moda é o primeiro espaço que um modelo brasileiro precisa conquistar. É o evento na capital paulista que define se um iniciante deve ou não voltar para a cidade natal. 

“É preciso lembrar que os 50% não é um benefício, é um direito conquistado”, afirma Camila. Ela, Natasha Soares e Thayná Santos, que participam do coletivo Pretos na Moda, foram decisivas para essa mudança se concretizar. As três modelos “invadiram” uma live de Paulo Borges, em 6 de junho, e cobraram um posicionamento da semana de moda mais importante da América Latina. Paulo Borges reconheceu que era hora de conversar e dar espaço para a “corajosa iniciativa”, como ele define. “O nosso papel é criar condições, mas o protagonismo é de todos os corpos criativos racializados.”

Ao falar sobre as funções nessa indústria, vale explicar que cada marca é responsável pela contratação das modelos. Aliás, o movimento Pretos na Moda também já confrontou os estilistas. Isso aconteceu quando as grifes se engajaram na hashtag Blackout Tuesday, em meio ao movimento Black Lives Matter, e postaram imagens pretas. “Surgiu uma revolta. Se nós não falássemos, iriam usar a causa de forma oportunista”, conta Camila. Segundo ela, foi nessa ocasião que a modelo Thayná relatou ter sofrido racismo em trabalhos para duas grifes: Reinaldo Lourenço (que não participará desta temporada e, na época, declarou ao jornal O Globo “errei e não tenho problema em admitir isso”) e Gloria Coelho, que tem apresentação marcada para domingo, 8. 

“Acho que todas as empresas eram racistas, nós temos que melhorar. Éramos racistas estruturais”, disse Gloria, que disse ter achado as cotas “uma iniciativa muito positiva”. “Neste desfile digital, tenho três mulheres: uma afrodescendente, uma branca e uma oriental.” 

A SPFW encara o racismo de maneira mais contundente em 2020, mas a semana de moda recomenda há mais de dez anos que as marcas participantes contratem pelo menos 20% de modelos afrodescendentes, indígenas e asiáticos. Entretanto, em 2009, o evento firmou um termo de ajustamento de conduta (TAC), que vigorou até 2011, com o Ministério Público do Estado de São Paulo, para que 10% dos profissionais nas passarelas fossem dessas raças.

 

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