Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Coluna da Alice Ferraz: Terapia de casal

Pela primeira vez em todos esses anos, teve certeza de que precisava de ajuda, e seria a de um profissional

Alice Ferraz, Moda

26 de setembro de 2021 | 15h00

Já tinha provado que havia dado certo: 15 anos, 13 de casados, 10 trabalhando e empreendendo juntos e 2 anos de pandemia, parte deles morando com a mãe e a sogra. Sobreviveram. Mas, nas últimas semanas, algo pesou. Pela primeira vez em todos esses anos, teve certeza de que precisava de ajuda, e seria a de um profissional. 

Ligou para a irmã, desabafou e recebeu de prontidão o número de telefone da expert em terapia de casais. Ligou sem dúvida alguma de que seu casamento corria risco e precisava urgentemente da avaliação de um especialista. Conseguir o horário não foi fácil, “época de pandemia”, pensou e relembrou todos os inúmeros artigos que citavam as estatísticas de separações neste momento. Ficou mais angustiada, insistiu e conseguiu o desejado encontro. 

Avisou, logo pela manhã, o marido, que iria sozinha falar sobre o casamento com uma terapeuta, o tom não era animador. É admiradora do processo terapêutico. Desde a adolescência até seu começo de namoro com o marido fez análise e considerava uma “higiene mental” se entender, escutar e conhecer-se. Mas fazia 15 anos da última sessão e estava destreinada. Arrumou-se como quem vai a um encontro profissional para impressionar. No meio do dia, antes de chegar à consulta, se sentiu ridícula em seus trajes: por que queria tanto agradar à terapeuta? 

Estava ansiosa, queria ser clara, cirúrgica em seu problema matrimonial. Não temos tempo a perder: “Tenho 51 anos”, pensou. O tal “tempus fugit” aumentava o volume de voz em sua mente, agora mais inquieta que de costume. Ou seria feliz ou nada, era a cabeça com a qual entrara no confortável consultório onde o vento batia fortemente na janela, como símbolo de tempestade à vista. Tinha certeza de sua fala. Estava havia pelo menos dez dias pronta para contar seus aborrecimentos e mazelas de uma vida comum e os terríveis defeitos de seu marido. 

Sentou delicadamente na ponta da poltrona pronta para despejar sua angustiante história e assim contextualizar e legitimar sua aflição. As palavras foram nascendo e como ouvinte de si mesma foi encontrando paz na narrativa. Ao contar resumidamente em voz alta sua trajetória, emocionou-se com uma alegria terna. Voltou-se, então, para o tema “o marido”, afinal ele foi o causador de suas últimas dores, e teria que expor a realidade àquela mulher que ouvia cada sílaba com atenção. 

Mas, a cada palavra, ela mesma se compadecia com a fraqueza de seus argumentos, comparava rapidamente os bons e maus momentos, fazia paralelos mentais entre os acertos do par e seus desentendimentos, olhava para ele no centro da tela, sendo projetado com uma luz intensa na face e começou, então, a sentir amor e compaixão por estar lá revelando seus deslizes. Parou. 

Foi ficando sem graça consigo mesma. Tinham problemas reais, mas eram também comprovadamente companheiros de jornada. Havia amor, admiração e percebeu, naquele momento, um forte sentimento de proteção. Não queria agora que “soubessem” dos pequenos defeitos do parceiro, eram dele – e quem não os tem? Finalizou a sessão prometendo-se ligar para marcar a consulta de casal. Entrou no carro e colocou a música dos dois. Chegou em casa tarde do trabalho e agradeceu por ele estar ali. Naquela noite dormiu em paz.

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