Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Coluna da Alice Ferraz: O nariz

Olhava-se no espelho com desconfiança, como reflexo de uma promessa não cumprida. Tinha medo do desapontamento que produziria quando descobrissem a verdade, que ela definitivamente não seria tão linda quanto achavam

Alice Ferraz, Moda

12 de setembro de 2021 | 15h00

Tinha nascido em uma família de mulheres lindas, pelo menos era isso que ouvia desde pequena. Sendo assim, dentro de sua cabeça, era natural que, quando crescesse, também fizesse parte dessa categoria. Na infância, foi uma criança forte, simpática, alegre e cabeluda – mas nenhuma menção era feita sobre a beleza. Não se sentia pressionada, mas, ao chegar na adolescência, começou a ficar ansiosa: “quando, afinal, seria ‘linda’?" 

Aos 13 anos, surgiu a primeira noção de que talvez essa realidade preestabelecida não seria assim tão óbvia no seu caso. Seu nariz começou a crescer mais do que o esperado e foi quando passou a ouvir alguns comentários na família: “O nariz cresceu primeiro, mas, quando o rosto amadurecer, ficará linda”.

Olhava-se no espelho com desconfiança, como reflexo de uma promessa não cumprida. Tinha medo do desapontamento que produziria quando descobrissem a verdade, que ela definitivamente não seria tão linda quanto achavam. Tentava, então, ser a mais simpática, a mais agradável, a mais atenta a tudo e a todos. Podia não ter sido agraciada com o presente gratuito da beleza de nascença, mas certamente iria se esforçar para produzir uma emoção em quem a conhecesse. 

Aos 16 anos, finalmente, concluiu que, além de estar fora do molde familiar, seu padrão de beleza estava longe do estabelecido pela mídia para sua geração. Com a imagem dos pequenos e perfeitos narizes das atrizes mais famosas da época, era cristalina a mensagem de que um nariz grande não era belo. Maitê Proença, Monique Evans, Michelle Pfeiffer, Farrah Fawcett e até Jaclyn Smith, a personagem do mais importante seriado de TV que assistia semanalmente, As Panteras, eram a prova viva de sua tese. 

Lembrou, então, de um conhecido de seus pais que sabia ser o mais famoso cirurgião plástico do momento e marcou uma consulta sozinha. Tinha certeza que ele poderia resolver a situação, contornar esse “defeito” que a colocava tão distante de todas as suas referências femininas. 

Abriu seu coração ao médico, que ouviu seu relato com atenção genuína, e disse: “Sente nesta cadeira e vamos ver o que podemos fazer”. Sentiu um alívio imediato. E vira a cabeça para cima, para o lado, para baixo, apalpa o osso cada dia mais proeminente, respira, solta, respira de novo, tira foto de todos os ângulos, olha a foto. “Pronto! Ele entendeu!”, pensou. 

“Vou ser linda!” Tinha lágrimas nos olhos. Foi quando o cirurgião sentou ao seu lado, a olhou de perto e disse com franqueza absoluta: “Você é linda. Não tem uma beleza padrão, eu sei, você sabe, mas seu nariz carrega sua personalidade, seu rosto foi feito para ele, sua boca tem o tamanho para seu nariz. Ele está perfeito para você e não posso mexer em algo que vai te diminuir”. 

Sem margem para réplica, levantou, agradeceu e saiu da sala. Desnorteada, chorou sozinha. Se arrependeu de não ter levado alguém junto para insistir, convencê-lo de que estava errado. A partir dali, no entanto, seguiu a vida com a frase do médico ecoando sempre em sua cabeça toda a vez que era chamada de nariguda ou que se comparava intimamente com a beleza de sua família ou geração. Namorou, casou, separou, casou de novo e seu nariz virou para ela um símbolo de resistência e autoestima.

Essa semana, trinta e cinco anos depois, encontrou por acaso o cirurgião na porta de um restaurante. Reconheceram-se e abraçaram-se como se tivessem se visto na véspera. Foi quando ele olhou seu nariz e, com carinho, disse: “E eu não falei que era perfeito?”. 

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