Claudia Andujar
Claudia Andujar

Claudia Andujar: Grito Yanomami

A obra de Claudia Andujar, que está rodando museus do mundo, tornou-se um novo pedido de socorro de um povo ameaçado

Beta Germano, Moda

11 de julho de 2021 | 07h00

“O mundo precisa saber o que está acontecendo aqui”, disse a artista Claudia Andujar sobre a atual situação do povo Yanomami, cujo direito à terra, conquistado em grande parte pelo ativismo da artista, corre risco se o Projeto de Lei 490 for aprovado. O mundo sabe, graças ao seu trabalho.

Idealizada em 2019 pelo Instituto Moreira Salles (IMS), a exposição A Luta Yanomami passou pela Fondation Cartier, em Paris; Triennale di Milano, em Milão; Fundación Mapfre, em Barcelona; e agora está montada no The Barbican, em Londres, até dia 29 de agosto. No segundo semestre, a mostra segue para o The Shed, centro cultural na cidade de Nova York.  

Mas o que era para ser “apenas” uma bela homenagem a Andujar tornou-se um poético e potente manifesto pela sobrevivência. A nova lei, em processo de aprovação, modifica o sistema de demarcação das terras indígenas elaborado na Constituição de 1988, uma conquista que marcou o ano anterior à criação da mais impactante obra da retrospectiva.

A instalação Genocídio do Yanomami: Morte do Brasil, de 1989, foi concebida para a exposição Planeta Terra, no Masp, cujo objetivo era sensibilizar a opinião pública sobre a situação enfrentada pelo povo, que na época padecia de doenças causadas pelo contato com mineradores ilegais.  

Nascida em 1931 na região da Transilvânia, Andujar teve a família judia assassinada nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau. Ela precisou fugir para a Suíça e, alguns anos depois, foi morar com um tio em Nova York, onde aprendeu a fotografar. Foi só em 1955 que ela desembarcou no Brasil. Como não falava a língua, usou as imagens como meio de comunicação e logo começou a fazer reportagens visuais para as revistas Realidade, Life e The New York Times.

Visitou algumas tribos indígenas por causa do trabalho e, em 1971, encontrou o povo Yanomami pela primeira vez, e finalmente se encontrou. “Eles que falaram que sou artista, mas arte é apenas consequência. Eu só posso dizer que estou ligada ao indígena, à terra, à luta. Tudo isso me comove profundamente. Tudo parece essencial. Talvez eu sempre tenha procurado uma resposta à razão da vida nessa essencialidade. E fui levada para lá, na mata amazônica, por isso. Foi instintivo. Estava à procura de me encontrar”, afirma. 

Ela voltou inúmeras vezes à região para registrar (e mostrar ao mundo!) a cultura e tragédia Yanomami. Além da batalha incansável pela demarcação da terra indígena, Claudia dedicou-se também a cuidar da saúde daquele povo, o que deu origem a sua mais conhecida série: Marcados, composta por 84 retratos de indígenas segurando placas com números que registraram uma vacinação, foi vendida este ano para o MoMA.  Muitos comparam as imagens aos retratos de judeus numerados durante o Holocausto, marcados para morrer. Mas nesse caso foram “marcados para viver”, como ressalta a artista.  

Claudia só conseguiu oficializar a demarcação das terras mais de 20 anos depois do primeiro contato. Para celebrar a vitória, um momento de alívio, ela criou Sonhos Yanomami, de 2002, composta por 20 imagens geradas por meio da sobreposição de cromos e negativos. “A série marca um certo descanso que só foi possível com a demarcação das terras, em 1992”, explica Marcos Gallon, diretor da Galeria Vermelho, que representa a artista. 

Mas parece que os sonhos indígenas duram pouco e suas vidas não estarão asseguradas, enquanto houver especulação em seus territórios. Pouco mais de 30 anos após a primeira apresentação de Genocídio do Yanomami: a Morte do Brasil, os povos originários voltam a viver em ameaça. Além dos estimados quase 20 mil mineradores ilegais instalados em terras Yanomami, há um vírus que viaja pelo ar.

“Hoje eu sei que tudo está ligado ao que aconteceu com a minha família. Eu queria defender um povo por causa de todo mundo que morreu”, reflete a artista, aos 90 anos, com ar de doçura e melancolia. “Vou lutar pela vida dos Yanomamis até o fim da minha vida.”

Da esquerda para a direita, imagem da última série feita pela artista, ‘Sonhos Yanomami’, de 2002, exposta na Galeria Vermelho; retrato da jovem Susi Korihana thëri em um igarapé na aldeia Catrimani, Roraima, de 1972; e ‘Floresta Amazônica’, Pará, também da série ‘Sonhos Yanomami’

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