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Revista 'Moda' entra no casulo em sua terceira edição

Em um misto de questionamentos e uma angustiante vontade de transformação, a moda está em um processo de metamorfose

Alice Ferraz, Moda

30 de maio de 2020 | 16h00

A imagem de capa da nossa Moda deste mês é impactante: traz certo desconforto e inquietude. E é exatamente essa a posição da moda no mundo pós-pandemia. Em um misto de questionamentos e uma angustiante vontade de transformação, a moda está ainda dentro do casulo, presa no que pode parecer um repouso, mas que guarda dentro de si uma autêntica metamorfose. Uma alteração na consciência, na estrutura do pensamento que deve levar a novas atitudes e a um sistema inovador.

Nesse contexto, nada melhor do que se debruçar ao novo, na tentativa de entender como deve ser o caminho que gostaríamos de assistir à moda percorrer. Entre nós, brasileiros, investigamos quem já deu os primeiros passos e pode nos trazer um pouco de inspiração e conforto ao nos mostrarem que o percurso é possível – e que a saída do casulo será melhor e, quem sabe, até irreconhecível.

A primeira conversa foi com Gloria Coelho. A estilista brasileira vive a moda intensamente e é referência não só quando se fala do design de suas peças, mas também da criatividade pulsante que possui e do trabalho autoral que a colocaram no pódio da moda nacional. Gloria fala sobre sua quarentena e se mostra determinada a entrar nesse novo momento. “O mundo caminha para o coletivo. É um processo duro pelo qual estamos passando e ele acelera o que já deveria acontecer, mas que talvez levasse mais tempo. Na velocidade que estávamos caminhando, o produto era liquidado muito antes do que deveria. A união de todos será importante; criar um modelo de negócio com uma coleção menor é um caminho.

Estou em casa criando e repensando até a minha rotina. Quanto realmente precisava usar o carro e ir ao escritório todos os dias? É um novo mundo e o planeta está se curando”, afirma.

Gloria é uma estilista que usa 80% de tecidos nacionais em suas roupas, inclusive nos vestidos de festa.  Entre eles estão sedas, tules, malhas, sarjas de algodão e jersey. Cerca de 30% do faturamento da empresa vem de um tecido tecnológico, o TK, desenvolvido em parceria com a Rosset, em 2001. Sua fibra estimula a circulação sanguínea e auxilia a combater até a celulite, deixando a pele mais firme com o uso contínuo. Também é bactericida, impedindo o desenvolvimento de ácaros ou bactérias.

A marca decidiu pelo uso do tecido nacional há algumas décadas, processo que ajudou as empresas no desenvolvimento de melhores materiais, em paralelo ao olhar criativo da estilista. Quando as pontas da cadeia de produção se juntam, e todas as etapas são feitas em colaboração, o consumidor é quem mais ganha.

Outra responsabilidade da grife é conhecer profundamente as oficinas que produzem suas peças. “Nossa produção é 100% nacional e mantemos a atenção constante aos fornecedores. Sabemos quem realiza o trabalho e em quais condições. A preocupação com o caminho que minha roupa percorre até o consumidor é constante.” O estoque de tecidos, atenção mundial depois da divulgação de que marcas de luxo incineram estoques não utilizados, também é um fator importante para Gloria. A cada coleção, a empresa compra 50% de tecidos novos e usa 50% de seu estoque. Dessa maneira, 100% do estoque é utilizado. “Não criar mais lixo para nosso planeta é um ponto que pessoalmente me preocupa”, afirma a estilista.

Do que são feitas as marcas?

Vanguarda da moda mundial quando se fala em consumo consciente, Oskar Metsavaht começou sua narrativa em 1998 com a produção da primeira t-shirt de algodão orgânico produzida segundo critérios socioambientais sustentáveis para sua recém-lançada Osklen. Em 2007, depois de quase uma década da marca, a respeitada organização ligada ao meio ambiente WWF-UK (World Wildlife Fund do Reino Unido) lançou um estudo chamado “deeper luxury” (luxo profundo, em tradução livre), realizado por pesquisadores suíços. Os especialistas analisaram ações humanitárias e impactos ambientais dos principais grupos do setor.

A pergunta feita na época era: “Do que são feitas as marcas?”, reflexão perfeitamente atual e pertinente em 2020. Nesse estudo, a Osklen está classificada ao lado da marca de carros Tesla, reconhecida mundialmente por sua inovação, como símbolo do futuro do mercado de moda.

A Osklen continuou sua trajetória com olhar voltado ao consumo consciente e, em 2017, em mais um de seus projetos, promoveu a reciclagem de mais de 217 mil garrafas plásticas, que foram usadas em produtos da marca feitos de malha. Camisetas e moletons que podemos usar com o conforto emocional de saber que não estamos prejudicando o meio ambiente. Em sua jornada bem-sucedida em trazer design sofisticado aliado a materiais sustentáveis, a Osklen é exemplo para este momento em que se torna fundamental conciliar a moda e o meio ambiente.

Sigo para mais um encontro virtual. Pedro Lourenço, de 30 anos, símbolo do jovem empreendedor de moda com uma nova mentalidade, cresceu no universo fashion. Filho dos estilistas Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço, ele diz que foi apresentado a uma visão inovadora em um período em que ainda não havia a consciência atual. “Quando fiz meu primeiro desfile para a segunda marca da minha mãe, ela me pediu que estudasse a cabala. Tive contato com a espiritualidade e logo entendi a ideia de tudo estar conectado, a nossa responsabilidade no todo e a importância do constante autodesenvolvimento”, diz. “Quando se trata de sustentabilidade, é importante entender que o tema é um processo em desenvolvimento. É impossível tomar decisões sem fazer concessões. A minha geração tem uma missão. Os recursos da Terra têm limite e não podemos continuar extraindo sem responsabilidade. Precisamos criar um equilíbrio e descobrir um novo modelo econômico, não olhando para isso como um problema, mas como uma oportunidade”, afirma.

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