Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

As imperfeições dos pais perfeitos

Existir um dia destinado a nos lembrar desse vínculo afetivo eleva nossa consciência para oferecer um espaço de amor a mais em nossas vidas

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2020 | 03h00

Domingo, Dia dos Pais. Mas, Alice, você vai fazer apologia ao consumo? Dia dos Pais é uma data comercial, inventada para impulsionar vendas! Não vejo assim. Datas comemorativas de pura celebração ou as religiosas evocam o poder de trazer foco para assuntos, sentimentos e intenções. Claro que o amor pelos pais não deve ser demonstrado só nessa data e é fruto de uma relação diária, do cuidado e do afeto. Mas existir um dia destinado a nos lembrar desse vínculo afetivo eleva nossa consciência para oferecer um espaço de amor a mais em nossas vidas. A figura do pai, sendo ele de sangue, coração, escolhido por nós ou um presente da vida, tem impacto sobre quem somos e quem nos tornamos.

Como já contei por aqui, tive um pai com formação militar e sua maneira de demonstrar amor era diferente da maioria dos pais que eu conhecia. Eu, filha do meio de nove irmãos, queria mais atenção, obviamente mais do que meu pai podia oferecer naquele momento. Não era a predileta, além de ser uma menina que falava demais para alguém com a criação que meu pai teve. Nascido em uma São Paulo antiga, em 1924, ele me educou para ser aceita por uma sociedade que não incentivava mulheres a serem protagonistas. Sofri. Cresci.

Olhando minha história com meu pai, entendo que ele foi exatamente o pai que eu precisava ter para me tornar quem sou. A forma muitas vezes rígida com que fui moldada me fez resiliente. A tensão que ele trazia por dentro me preparou para um mundo tenso também. Lutar por sua atenção me preparou para não me sentir “menor” em um futuro em que a vida também não me olhava como eu gostaria.

Conheço pessoas que foram criadas por pais gentis, amorosos, mas que se tornaram insatisfeitas com quem não lhes dedica essa mesma atenção. Talvez, a certeza que elas sempre tiveram em casa de que eram especiais tenha feito surgir uma espécie de zona de conforto aparentemente duradoura. Comandante Ferraz me ofereceu proteção, educação e valores. A luta por seu amor, atenção e respeito teve que ser conquistada. Se consegui? Ele foi embora antes de me dizer, mas acredito sinceramente que sim.

Uma grata surpresa que tive sobre pais é que podemos ter inúmeras figuras paternas que nos ajudam a construir nossa personalidade. Meu filho, por exemplo, teve pelo menos três. Um pai amoroso e leve que está sempre pronto para as festas da vida. Um padrasto, que talvez pela origem judaica, trouxe a profundidade e as infinitas regras de sua fé para o dia a dia em nossa casa. E um tio-avô, que durante os anos da formação do meu filho ensinou humildade e certa dose de culpa cristã.

Quando olho para o Gabriel hoje, aos 24 anos, vejo uma mistura desses três homens e sou grata por ter contado com eles e com seus “defeitos” e “qualidades”. Então, fica aqui minha homenagem a todos os pais, os “perfeitos”, mas ainda mais aos que se sentem “imperfeitos”. Desse lugar incerto pode nascer o bem e a alegria de ver um filho trilhando o melhor caminho.

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