Juliana de Souza
Juliana de Souza

Arte e fé

Diálogo entre obras e crenças em exposição em espaço de arquitetura

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2021 | 05h00

“A bela menina que, sem saber, herdou a flor da minha arte. E que dirão no futuro suas cores, a magia de suas figuras e o desespero de criar? Saberá levar esta carga adiante? Para vencer na arte é preciso muita coragem! Só o desespero de criar sustenta o viver como artista.” 

Ao perceber que a neta Ciccy Halpern levava o mesmo amor pela arte que ela, Maria Amélia Botelho de Souza Aranha (1917-2011), a Mabsa, resolveu escrever o texto para a jovem. 

Afinal, ser artista para Mabsa, parte da elite quatrocentona paulistana, foi um desafio que precisou ser vencido diariamente. Um ato de coragem de uma mulher à frente de seu tempo. 

O futuro da neta, que Mabsa mencionava na carta com certo receio, chegou e o trabalho desenvolvido por Ciccy, a convite do arquiteto e designer Ugo di Pace, vai ganhar espaço em outubro no Studio 689, ao lado da produção artística da avó. “Desde a primeira vez que vi a obra de Mabsa, pensei: está aí uma grande artista, uma mulher extraordinária. Suas esculturas são tão próprias e espontâneas, são obras de arte antes mesmo de nascerem”, diz Di Pace. 

O amor pela arte chegou cedo à vida de Mabsa. Desde muito jovem pintava e desenhava e, aos 17 anos, passou a frequentar o ateliê do artista Antonio Rocco, um dos pintores que a elite da época patrocinava. Foram anos de estudo para aperfeiçoar seus traços figurativos. Só depois de ter ficado viúva de seu grande amor, Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha, que Mabsa deixou a pintura acadêmica para criar seu reconhecível universo imaginário, cheio de animais fantásticos, agora reunidos na mostra Arte e Fé: Ciccy e Mabsa.

A partir da produção da avó, Ciccy descobriu uma forte conexão com o universo artístico que a levou, à revelia de muitos, a cursar artes plásticas, na Faap. Apesar da decisão, acabou tendo sua vida profissional pautada por outra de suas afinidades, a moda. Desde que se formou, trabalha na área criativa da Mixed, marca feminina fundada e dirigida pela mãe, Riccy Trussardi de Souza Aranha. A vontade de desenhar no papel e na tela, no entanto, retornou com força durante a pandemia. 

Em casa, grávida do terceiro filho, batizada de Glória, começou a esboçar a série Glórias Vindouras. É esta produção colorida e orgânica que ocupará o espaço de Di Pace ao lado das esculturas de Mabsa. 

“Minhas pinturas retratam principalmente elementos que voam, que saem de dentro de nós e se espalham pelo mundo. Eles representam uma espécie de libertação, como se janelas e gaiolas se abrissem e pudéssemos sair. É muito interessante perceber que as asas e o ato de voar são temas recorrentes também nas obras da minha avó, como pássaros, borboletas e o Pégaso”, conta Ciccy. 

Além da arte, Ciccy, assim como a avó, nutre a paixão pela religiosidade. A relação com o divino, com o Espírito Santo e com a força celeste deram a ambas a coragem de seguir o mesmo caminho. Por isso, o título da atual mostra retoma uma das emblemáticas exposições de Mabsa na cripta do Pateo do Collegio, em 1996, chamada Arte e Fé. 

“Tanto minha avó quanto eu sempre acreditamos na arte como refúgio espiritual, uma forma de nos conectarmos com Deus. Realizar essa mostra unindo as nossas obras é um sonho que se torna realidade. Sempre fomos muito próximas e a influência artística dela foi muito importante para mim”, diz Ciccy. A primeira exposição da neta, assim que se formou, foi, inclusive, na casa da avó, onde Ciccy apresentou desenhos figurativos que também evocavam a fé familiar. Foi nesse evento que Ugo di Pace comprou a primeira obra de Ciccy, a pintura de uma Santa Terezinha. “Desde aquela época já sabia de seu talento. Acredito que artistas como Mabsa e Ciccy são veículos que conectam a inspiração divina com a obra de arte em si. Um verdadeiro privilégio”, conclui Di Pace.

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