Pablo Saborindo
Pablo Saborindo

Arte de ressignificar: Sonia Gomes apresenta a exposição Lágrima

Com um trabalho potente sobre memória, Sonia apresenta exposição que marca a despedida da galeria Mendes Wood DM de seu atual espaço

Ana Carolina Ralston, Moda

01 de agosto de 2021 | 10h00

“Mal podia imaginar que o mundo fosse chorar tanto depois disso”, disse Sonia Gomes sentada em seu ateliê, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, com semblante apreensivo, como se, por alguns segundos, tivesse sido transportada para março de 2020, pouco antes do início do isolamento social. Foi nessa época que a artista nascida em Caetanópolis, Minas Gerais, concluía Lágrima, obra que dá nome à sua próxima exposição, a ser inaugurada no próximo dia 21 na Galeria Mendes Wood DM, nos Jardins.  

Em formato de gota, o centro da peça exibe um emaranhado de volumes avermelhados em meio a um largo tecido. De fato, a obra parece ter sido uma espécie de premonição de Sonia dos sombrios tempos que viriam a seguir. Hoje, no entanto, ela simboliza um novo momento, no qual galerias e instituições voltam a abrir suas portas, ainda com inúmeros cuidados sanitários, mas com a esperança do retorno gradual às suas atividades.  

Lágrima também marca a despedida de sua galeria Mendes Wood DM do atual endereço para ocupar um novo espaço, na Barra Funda, polo artístico da cidade que tem ganhado cada vez mais força com a abertura de espaços culturais de diferentes formatos. “Será um recomeço, no qual estamos também revendo nossa relação com a cidade”, comenta Pedro Mendes, um dos três nomes no comando da galeria, ao lado de Matthew Wood e Felipe Dmab. A galeria é um dos importantes vértices da internacionalização de artistas brasileiros, como a própria Sonia Gomes, que viu suas obras ganharem o mundo na última década, de Bienais, como a de Veneza, a coleções de museus nos Estados Unidos e Europa. 

O rito de passagem do qual a mostra de Sonia faz parte condiz com sua produção artística, que reúne memórias embebidas em roupas e objetos ressignificados em trabalhos escultóricos. Em Lágrima, ela une dois universos que, até então, caminhavam separadamente em sua obra, o do desenho e o das obras tridimensionais. “Gosto de experimentar, de ousar e sempre apresentar um novo desdobramento ou sentido para peças ordinárias”, diz.  

A busca por tais significados começou cedo na vida da artista, em composições inusitadas que envolvem elementos que dialogam com sua própria história de vida. Filha de mãe negra e pai branco, Sonia traz a influência da avó materna, parteira e benzedeira, mas também da família paterna, de quem herdou o gosto por guardados, de fotos a retalhos de tecido.

Foi na busca por tais tramas e texturas em seu ateliê que me deparei com um rendado vestido de noiva em plena transmutação. “Ele irá se transformar em algo novo. No fim, só eu saberei que ele vestiu uma noiva”, comenta. Cabe a nós, visitantes de sua nova mostra, o delírio criativo de imaginar por onde os pedaços de suas obras já transitaram e fizeram história.

Tudo o que sabemos sobre:
Sonia Gomesexposição

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.