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Ana Carolina Ralston: Filhos atípicos

A síndrome de Williams também é chamada de síndrome do “não preconceito”, pois as pessoas que a levam consigo não estranham o outro ser humano, não o temem nem desconfiam de sua bondade

Ana Carolina Ralston, Moda

08 de maio de 2022 | 06h00

Lia não sorriu, sentou ou falou no tempo que indicavam as tabelas dos livros sobre desenvolvimento infantil. Seu raciocínio e sua atenção trabalham sob outra perspectiva e, quanto mais ela cresce e se torna uma linda e doce menininha, mais sinto e vejo-a fora dos padrões estabelecidos pela nossa sociedade.

Lia possui a deleção de alguns genes de uma das perninhas do cromossomo 7, o que a coloca como parte do raro grupo de pessoas que têm a chamada síndrome de Williams. E tudo isso fez de mim parte de um grupo nada raro, o de mães atípicas. 

Antes de me tornar uma mãe atípica, talvez eu não tivesse a dimensão da importância de unir tais mulheres. Hoje percebo o quão necessário é a existência de encontros que discutam, seja presencial ou digitalmente, os desafios dessa maternidade, em que podemos dividir anseios, angústias e indicações de bons profissionais que nos ajudem na tarefa muitas vezes árdua de prepararmos nossos filhos para viverem no desafiador mundo que criamos. Como não temer a inserção justa dos seres que mais amamos em uma sociedade ainda tão pouco inclusiva? 

A síndrome de Williams também é chamada de síndrome do “não preconceito”, pois as pessoas que a levam consigo não estranham o outro ser humano, não o temem nem desconfiam de sua bondade. Veem nele apenas a tríade de Platão: o bom, o belo e o verdadeiro.

Possuem um sorriso lindo e frequente e uma ingenuidade que não irá embora com o tempo. Lia ama música e se comunica com os outros em grande parte atrás dela. Diagnósticos dizem que ela tem ouvido absoluto, capacidade que alguns seres humanos possuem de identificar a nota musical exata de qualquer som, sem a necessidade de uma referência prévia. 

Este mês, em que celebramos as mães, Lia completa 3 anos, quase o mesmo tempo do dia em que recebi a notícia que, em algum lugar de mim, eu já sabia desde quando ela fazia a  minha barriga dançar junto ao seu irmão gêmeo, Ivan. Hoje, sinto-me preparada para lutar pelo direito de ela ser feliz e orgulhosa de ser como é. Também me sinto forte o suficiente para batalhar para que outras mulheres possam exercer sua maternidade atípica com mais acolhimento e amor.  

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