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Ecologia: Impedir o desmatamento salvará a Amazônia?

Aqui, dois importantes artistas da cena contemporânea mostram um caminho interessante para reestruturar e emancipar regiões do Brasil

Ana Carolina Ralston, Moda

19 de junho de 2022 | 07h30

Autonomia para uma vida digna e sustentável dentro do próprio território. Mesmo para aqueles que pouco sabem da real situação de vida em regiões brasileiras afastadas dos polos econômicos, como a Amazônia, a frase esboça o desafio hercúleo de ajudar talentos da região a criar sustento e a seguir dentro das cidades florestais, que têm papel fundamental na preservação das regiões. “Mas, para preservar a Amazônia, basta não derrubar as arvores, certo?” Nem tanto – e a cada dia temos mais ciência disso.

O controle do desmatamento é fundamental para nosso bioma, mas criar condições para que os guardiões da nossa floresta vivam nela é parte do processo para que tais povos sigam inseridos no universo natural, sendo a ponte necessária entre o mudo urbanizado e a natureza. É nesse espaço que dois importantes artistas do cenário contemporâneo têm ocupado e feito a diferença: Frederico Filippi e Rodrigo Silveira. Artista plástico e designer, eles reuniram esforços, tempo e resiliência para tirar do papel projetos que mudam o cenário da região, entre eles uma escola e, agora, uma movelaria, para produção e venda de móveis.

Filippi desembarcou na Amazônia em 2016 para ajudar a levantar uma escola na região amazônica de Igapó, projeto liderado pela ONG Casa do Rio. Entre idas e vindas e muito suor, o espaço nasceu em 2019 e tem trazido à região ganhos imensuráveis que incluem principalmente a preservação e a conscientização local.

Foi com o sucesso da primeira empreitada que o artista decidiu voltar para a região do Km 260 da BR 319, no Amazonas, onde trabalha com a Cooperativa de Manejadores do Igapó-Açu (Coopmaia), a Casa do Rio e a Idesam para o desenvolvimento da Movelaria do Igapó, parte do Legado Integrado da Região Amazônica (Lira), uma iniciativa de geração de renda, permanência e autonomia por meio do manejo e beneficiamento de madeira.

“Muito se esbraveja sobre desmatamento de nossas florestas nativas, mas pouca gente se pergunta de onde a madeira da cadeira em que está sentado vem. Foi quando descobri o manejo sustentável comunitário, que é uma forma de extrativismo justa com a floresta e quem nasceu nela”, diz Silveira.  

A causa pela qual lutam os dois artistas vai além do bem comum e invade suas próprias criações. A última exposição de Filippi, “Terra de Ninguém”, exibida em 2019 na Galeria Leme, já tratava de tais pontos de confluência, incitando à discussão sobre fronteiras e territórios, algo que aparece no projeto atual de produção de móveis e objetos. “O plano de asfaltamento da estrada do Igapó vai deslocar obrigatoriamente todas as famílias para longe do rio, onde vai existir uma ponte.

Os esforços são de reorganizar e garantir a permanência e condições de vida das famílias da região. Onde existem estradas na Amazônia, existe essa tensão. Por outro lado, também há uma reivindicação pelo direito de acesso, de ir e vir. Essa multiplicidade de lados existentes dessas tensões faz parte do meu trabalho”, explica. 

Já Silveira, autor de uma produção que flerta entre os universo da arte e do design, passou a ter a preocupação em entender a origem da matéria-prima que usa. “Sempre fiz parte de todo o processo, desde a escolha de madeiras na madeireira até a entrega pro cliente. Mas percebi que, para ter o domínio total, precisava estar presente na floresta, que é onde começa essa cadeia produtiva do objeto de design.”

Hoje, a questão levantada por ativistas e artistas é a mesma: há possibilidade de se viver sem produtos florestais? “Eu diria que não”, dispara Silveira. “A resposta está no investimento em métodos de menor impacto ambiental, como o modelo deste projeto. É talvez com a criação de um senso de pertencimento que poderemos desenvolver a vontade de resistência.”

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