Amangonhecer

Amangonhecer

O tempo não está nas janelas, mas no corpo e no ser. Talvez a moda não seja o modo que mudou, mas que continua em outro prosseguimento do que foi

Nilton Bonder, Moda

12 de dezembro de 2020 | 16h00

Foi minha mãe que me alertou. Limitada em movimentos, condenada a uma janela pela qual contempla o mar, ela desvendou: “O eixo da Terra mudou! As ondas pararam!” Teria me bastado sua intuição, mas no dia seguinte li algo assim sobre o eixo da Terra variar. Tive então certeza – o que ela viu foi um novo tempo.

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Alheia à covid, para a qual teve um assintomático pouco-caso, não escapou ao tempo que a afetou ou infectou. Quando o tempo trava ou desanda, todos os eixos se desalinham. Também experimentei isso de minhas janelas, as quais ainda suponho portais. Neste ano comecei a amanhecer um tempo mais líquido, feito relógio de Dalí. Do analógico relógio-torre do meu avô ao digital e preciso monitor, sou mutante do mundo das variações ao mundo das descontinuidades.

Os segundos não fluem mais em minutos, eles abruptamente pop na disruptiva tela digital. Não há mais como deixar o olhar sobre o momento que já passou. Ele some como se não existisse. São tempos sem aproximações, inviabilizando o “quase três-e-quinze!”. Foi-se o redondo que graficamente revelava ciclos e chegou o quadrado, desfazendo o cooperativo tique-taque entre o que foi e o que será.

Não me aconteceu, porém, desse papo rabugento a cronofania (a aparição do tempo) que vou relatar. Foi na mudança de hábito, ao subir ao terraço para me exercitar na alva do dia, que me deparei alojado em novo tempo. Ali habitava uma mangueira gestante de pequenas e verdes mangas.

Acompanhei os frutos fruírem como não fiz nem com meus filhos. A transição de verde a rosa das folhas e de verde a amarelo dos frutos me fez sentir que as coisas não mudam, elas se continuam. O tempo não está nas janelas, mas no corpo e no ser. Talvez a moda não seja o modo que mudou, mas que continua em outro prosseguimento do que foi.

Espero que, chegado meu tempo de ver da janela de minha mãe, experimente sereno a epifania que ela tentava descrever. E que na falta de palavras, possam surgir visões não de eixos desalinhados, mas o olhar para ver amangonhecer o dia.

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