Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Alice Ferraz: Pela mansidão dos amores e da vida

Aos poucos, a menina foi chegando e chegando e, sentada ao lado de Cadinho, com pés que ainda não tocavam o chão, ficou ouvindo suas histórias tão únicas

Alice Ferraz, Moda

21 de maio de 2022 | 06h00

A menina soube assim que chegou da escola: “Cadinho virá fazer uma visita após o jantar”. Cadinho era o diminutivo de Ricardo, seu primo mais velho, e a primeira pessoa do sexo masculino que fez seu coração bater mais forte. Almoçou, fez as tarefas e começou os preparativos para a ocasião. 

Usou o shampoo novo que a mãe comprou especialmente para ela e que tinha cheiro de chiclete, penteou os cabelos bem para trás, o que deixava seu rosto mais à mostra, e sorriu, gostando da imagem que via no espelho embaçado pela água pelando do banho. Separou vários pijamas em cima da cama e escolheu, claro, o “de pezinho”, uma nova moda que certamente “ele” iria notar. 

O carrilhão tocou e ainda eram seis da tarde quando ela estava pronta, sentada, assistindo ao que seria um vício eterno, as novelas. Quando a campainha tocou, fugiu para o quarto esperando seus padrinhos serem recebidos, entrarem com Cadinho e notarem sua falta. 

“Cadê” Alicinha? Era como era chamada por ter o mesmo nome da mãe, Maria Alice. O bate-papo começou e, pé ante pé, ela caminhou por trás dos móveis até chegar à sala de estar, onde finalmente se escondeu por trás do sofá. Em frente estavam seus tios e seu primeiro amor. Ela sabia que era vista. Ele fingia que não a via, mas ela sentia sua atenção – e também a delicadeza de não a forçar a aparecer por inteiro para as visitas. 

Cadinho era educado ao falar, usava grandes e profundos óculos de grau, cabelos lisos pretos um pouco mais compridos que o comum, alto, magro e jogava golfe! Quem jogava golfe no Brasil, ainda mais na década de 70? Era estranho, quase excêntrico, o que confirmaria o gosto da futura mulher pelo diferente, pelo novo. 

Aos poucos, a menina foi chegando e chegando e, sentada ao lado de Cadinho, com pés que ainda não tocavam o chão, ficou ouvindo suas histórias tão únicas. Ele morava em outra cidade e também em outro Estado, tinha um sotaque onde as palavras do dia a dia se tornavam especiais. 

Cadinho ouvia com atenção o pai da menina, militar, com fortes opiniões e cheio de conselhos para o sobrinho. Ele, no entanto, era calmo e gentil, sem certezas absolutas, sem tantas guerras internas. Cadinho era um respiro, uma brisa em mares calmos que a inspira até hoje quando as relações parecem tão carentes das sutilezas e da mansidão.

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