Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Alice Ferraz: O inferno é imóvel

Se livrariam da prisão de uma imagem distorcida pelo avanço do tempo. Descobriu ali que Rubem Braga tinha razão

Alice Ferraz, Moda

28 de maio de 2022 | 09h10

Entrou no túnel do tempo com consciência e achando graça. Virou-se para o marido e perguntou: “Há quantos anos não jantamos aqui? 15?”. E acomodaram-se no fundo do salão, após passarem por mesas e mesas lotadas de conhecidos. 

Uma parada aqui, outra ali, cheias de “oi, quanto tempo”. A visão de rostos familiares transportados imediatamente para um lugar fora de contexto lhes trouxe um frio na espinha. 

“Uma delícia estar aqui novamente”, foi a frase que saiu meio de canto, sem certeza, ao encontrar o maître que conhecia de uma outra vida.

Neste momento, o mais incomum sentimento aflorou: estava no lugar certo no momento de vida errado. Ou era o lugar errado para o certo momento da sua vida? 

ELEGÂNCIA DE OUTROS TEMPOS. O espaço ainda era lindo, comida de excelência e as mesmas pessoas elegantes ainda estavam por lá. 

E foi aí que pensou que talvez fosse exatamente isso, como diria o rei das crônicas Rubem Braga em sua A Traição das Elegantes, talvez o problema fosse essa pressuposta elegância de outros tempos que, sem se mover, parada nesse túnel por onde o tempo magicamente caminha, tenha tragicamente ficado presa ali, como um “patrimônio estético e social” que perdeu o passo e o ritmo. 

Mas quando foi que tudo isso mudou? No terceiro ou no quarto ano? Ou será que depois da primeira década?

Mais estratégico poderia ser, assim como realizamos com nossos iPhones e gadgets de tecnologia, se pudéssemos recorrer anualmente a algum técnico ou expert que fizesse uma checagem para nos impor instantaneamente um upgrade de categoria. 

NOVO MUNDO. Seriam, então, elegantes de uma época arrancados de seu cômodo lugar de conforto e colocados frente a frente com as necessárias transformações, alinhadas com as mudanças de comportamento de um novo mundo. 

Se livrariam da prisão de uma imagem distorcida pelo avanço do tempo. Descobriu ali que Rubem Braga tinha razão, “o inferno é imóvel”.

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