Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Alice Ferraz: A virtude de ser humano

Aos 18 anos, tinha lido um livro que a marcara tão profundamente que permanecia em sua cabeceira. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, do filósofo francês André Comte-Sponville

Alice Ferraz, Moda

30 de abril de 2022 | 09h13

Ela sabia que a previsão era de uma semana difícil. Nem precisaria dos astros para antever isso. Olhar para sua agenda abarrotada naquele domingo, momento em que parava para organizar a mente para os desafios de uma executiva, lhe causara um súbito arrepio de pânico. O foco para equilibrar todos os pratos estava consumindo parte da sua energia, era isso, concluiu. 

Segunda, às 8h, já na primeira reunião, acreditou que estava preparada e seguiu confiante. Vieram as das 10h30, 11h30 e, assim, a agenda seguiu de reunião em reunião e por alguns zooms. No final do dia, uma certa percepção de que a pressa estava corrompendo processos e falas com uma severa falta de educação. 

Na terça-feira, teve a impressão de que algo a estava deixando mais nervosa do que de costume. Na quarta, a impressão se transformou em certeza e tentou lembrar os detalhes dos encontros, das conversas, do tom, da forma e, “explosão”, entendeu de súbito qual era a questão. 

Aos 18 anos, tinha lido um livro que a marcara tão profundamente que permanecia em sua cabeceira. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, do filósofo francês André Comte-Sponville. Nele, o autor inspira em seu público uma vontade de “agir bem” demonstrando, como ele mesmo diz, “que a virtude de um homem é o que o faz humano”. 

A virtude que abre o livro é a polidez e ela sabia que, como o próprio autor escreveu, a virtude da polidez parecia menor do que todas as outras. “A polidez é a primeira virtude e, quem sabe, a origem de todas. É também a mais pobre, a mais superficial, a mais discutível”, diz ele. 

Ela não conseguiu refletir no momento, pois a tal agenda parecia criar espaços nos intervalos para mais e mais trabalho. Foi em frente, empurrando para baixo do tapete o desconforto e reagindo como uma criança que, sem ser obrigada pelos pais em seus primeiros anos a agir de forma educada, estava agora, em resposta à truculência das interações na semana, ignorando os códigos da vida social e abaixando sua tal “polidez” a cada segundo. Um círculo vicioso que teria de ser detido de imediato por ela. 

Era sábado, abriu novamente o livro e lá estava: “Como nenhuma virtude é natural, é preciso tornar-se virtuoso e dizer ‘por favor’ ou ‘desculpe’ é simular respeito; dizer ‘obrigado’ é simular reconhecimento. É aí que começam o respeito e o reconhecimento. Como a natureza imita a arte, assim a moral imita a polidez”.

No dia seguinte se preparou para a semana, a agenda abarrotada já não causou o arrepio de pânico, mas uma certa ansiedade para colocar em prática intencionalmente sua quase perdida polidez. 

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