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Adriano Gambarini: In natura

Nasci e fui educado para ser um viajante, no mais amplo sentido da palavra. Aquele que aprende que toda viagem é um encontro, não uma busca

Adriano Gambarini, Moda

29 de agosto de 2020 | 16h00

Conexão e cumplicidade. Se existem palavras que possam expressar qual o sentido de viver, e querer viver em contato com a natureza, são estas. Cumplicidade e conexão. Sem hierarquia, apenas complementares. Porque a natureza é assim, coletiva e unitária, num maravilhoso emaranhado de seres e sentidos vivos, independentes e interligados.

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Nasci e fui educado para ser um viajante, no mais amplo sentido da palavra. Aquele que aprende que toda viagem é um encontro, não uma busca. E foi com a proteção dessa verdade que me tornei um caminhante, primeiro sob o olhar cuidadoso da família, até o momento em que minha alma alçou voo e me tornei parte do mundo. Um observador incondicional da vida e suas infindáveis possibilidades. Das praias desertas aos campos da Provence, do sábio Oriente às águas azuladas do " target="_blank">Mediterrâneo. Por perceber quão grandioso é este mundo, busquei compreendê-lo na ciência que estuda sua formação enquanto planeta. Era preciso entender para então se conectar. À medida que me deparava com o intelecto, fui percebendo que o conhecimento é como uma ponte, apenas possibilita a passagem. O ímpeto de cruzar essa ponte, de experimentar o novo, vem do que nos é dado sem fórmulas. Vem do coração. Só depois de desvendar essa equação simples entre intelecto e emoção que senti a natureza em sua forma mais perfeita, e me tornei parte dela.

Nesta jornada do caminhar, a conexão vai dando um novo sentido aos sentidos. O olhar se mistura ao ver, o escutar se desconstrói no ato de ouvir e os cheiros são delicadamente tateáveis. Algo já existente dentro de você, mas paradoxalmente novo, vai reconstruindo seu ser, de dentro pra fora, sutilmente, e tudo que sempre esteve ali se torna eterno e etéreo. O mundo se transmuta. As paisagens, rios e florestas, mares e montanhas se tornam uma extensão fluida e expansiva de si mesmo.

Foi neste experienciar que me tornei fotógrafo. Alguém que se tornou parte daquilo que registra, sem o momento de estar, mas sim com uma incondicional  permanência do ser. Alguém que percebeu que uma imagem não é o que vemos, é o que trazemos dentro de nós. Num caminhar que já dura três décadas, sem pressa, sem cansaço e com uma curiosidade permanente e empolgada, crente de que qualquer situação é iluminada por novidades, experiências e aprendizados. Seja no silêncio de uma mata nativa ou na escuridão de uma caverna; na beleza arrebatadora do sol ou no olhar doce dos povos que comungam com a natureza.

 


Adriano Gambarini é fotógrafo e parte do seleto grupo de profissionais da conceituada National Geographic.

Apaixonado pelo meio ambiente, é autor de 14 livros e assina o editorial de moda desta edição.

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