Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Ado ado ado, saia do seu quadrado

Alice Ferraz escreve sobre a importância da colaboração para as relações

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

Quem conhece as obras dos artistas plásticos OsGêmeos, reconhecidos hoje internacionalmente, talvez não saiba como ocorre seu processo de criação. Os dois atuam de maneira complementar e em colaboração em todos os trabalhos. Em sintonia, e talvez até em certa simbiose, Gustavo e Otavio Pandolfo são partes que juntas realizam obras completas. Conhecer a criação dos dois me trouxe, na época, a certeza de que esse era o caminho que eu gostaria de seguir, o da colaboração. Gustavo e Otavio não tentam mostrar que um fez mais ou contribuiu mais que o outro em cada obra, eles se entendem como parte e não como todo. A Obra é o todo, completa pela produção das partes. O exemplo de OsGêmeos é raro, talvez sejam eles pessoas que tenham nascido à frente do seu tempo com um chip que os fez intuir mais do que compreender, que a colaboração é fundamental.

Manter atitudes focadas nessa intenção não facilitou a minha vida. A busca por colaboração e complementaridade ainda era um sonho distante quando me dei conta de que esse sistema era minha meta. No trabalho, a frase conhecida e muitas vezes usada para me “educar” era: “Alice, cada um no seu quadrado” (e ela significa justamente o oposto de onde eu gostaria de chegar). Não queria estar só no meu quadrado e nem queria que outros estivessem nos seus. Tive problemas por isso. Os limites eram impostos de maneira clara e um sentido de competição e de perda de espaço era comum nos meus pares quando tentava uma aproximação. Em minha primeira profissão como assessora de imprensa, ter uma ideia de pauta era invadir o espaço do jornalista, ou seja, seu quadrado. Meu lugar era de assessorar no sentido de servir ou auxiliar nas informações e ponto.

Na minha segunda “vida” profissional, como empreendedora e parte integrante de uma plataforma que une digitalmente criadoras de conteúdo, a palavra colaboração faz parte da cultura do negócio. Engajar, contribuir, criar em parceria, cooperar é a regra. Meu mantra é “não fique no seu quadrado, invada o meu”, comente, indique para amigos. Uma pessoa sozinha não cria a onda necessária para que a informação se espalhe. Precisamos estar juntos na mesma direção. A cooperação dentro do universo de mídias sociais digitais traz um ganho exponencial para todos os participantes. Dessa forma, mulheres que antes poderiam competir, hoje entendem por meio de seus trabalhos a necessidade da colaboração e a beleza do encontro com o outro que é diferente e complementar a nós mesmos.

Na vida pessoal, a falta de conexão que me deixava aflita era a diferença imposta entre minha persona pública e privada. Compartimentar minha vida em pequenas caixas sem ter a visão da totalidade refletia uma imagem irreal de quem eu era. Tive dois relacionamentos com homens que agiam em seus “quadrados” e queriam que eu estivesse no meu. Trabalhos separados por muralhas e, em casa, eu era outra Alice, dona de casa e com vida social mais ativa do que gostaria. Trabalhar aos finais de semana ou em horários não adequados era motivo de julgamentos. Agi com profunda resistência para não entregar os pontos e não seguir o que seria o modus operandi esperado. A colaboração dentro do meu casamento atual parte de um lugar onde ambos sabemos que existem coisas que não sabemos. Assim, fica entendido que o outro tem habilidades que não possuímos e que sua colaboração é, além de bem-vinda, necessária. Minha real falta de competência para finanças nesse sentido foi compensada pela enorme habilidade do meu marido nessa área. A falta que existe nele dentro da área de criação, é meu ponto forte, e, juntos, atuamos como pares, sem querer saber o que o outro já sabe e sim atuando e aperfeiçoando nosso melhor. A Alice com falhas incorrigíveis como dona de casa abriu mais espaço e tempo para desenvolver o lado profissional. Me ver trabalhando em casa aos finais de semana é natural para meu marido. Pedir conselhos constantes para que me ele me ajude em um raciocínio sistêmico faz parte do nosso dia a dia. Um equilíbrio sem competição. A colaboração em que a falta que temos em nós é suprida pelo que sobra em outro ser humano. Quando atingimos essa balança equilibrada em algum aspecto da vida, a possibilidade para que outras relações sejam colaborativas se mostra mais real, tornando o caminho mais leve e agradável também.

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