Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A tal liberdade

Estava novamente pronta para ir para o mundo, absorver e atuar sabendo que teria também de voltar, restringir e resumir para sentir a tal liberdade

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2022 | 14h09

Ela passa parte da semana em uma pequena casa no litoral norte de São Paulo. São seis anos de idas e vindas entre a cidade grande, viagens de trabalho pelo mundo e este pequenino espaço que a recebe e a abriga. Passou meses durante a pandemia morando ali, se sentindo acolhida sem entender exatamente o porquê de tal sensação. A casa é de pequeníssimas dimensões e muitas vezes lhe parece estranho se sentir tão livre nesse local que à primeira vista é visivelmente restrito. Depois de uma semana vivendo em São Paulo com sua superabundante demanda e oferta, ela se sente em fuga ao pegar a estrada deixando para trás a grandeza para se instalar em um lugar pequenino.

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Assim, na última semana, sem se ater a nenhuma dessas reflexões, ela chegou de mais uma semana de moda em Paris. Se São Paulo é grande em dimensões, Paris é enorme em conexões mundiais. 

Nessas ocasiões, ela é invadida por um volume de novas informações: são imagens, textos, espaços, cheiros, sabores, cores e novas interações pessoais. Tudo isso a faz inflar física e emocionalmente. Mesmo quando não lhe cabe mais nada, ela se agarra a cada momento sem conseguir deixar passar qualquer potencial oportunidade.

No dia em que chegou da última viagem, sua alma e corpo pediam com insistência pela “fuga para a casinha”, já naquele mesmo dia. Foi. E sentiu de imediato a liberdade dentro do pequeno quarto, do pequeno box onde a água caía no volume certo para enxaguar seu pequeno corpo. Olhou detalhadamente em volta com sua mente analítica, comparando pé-direito, porta, azulejos, pia… Foi invadida pela tal liberdade que não precisava vir das grandes cidades, casas, hotéis, amplos banheiros, informações e viagens. A liberdade maior quanto mais conectada ela está com as dimensões humanas. Em dois dias condensou e redimensionou o amontoado de novos conhecimentos, experiências e esvaziou certas caixinhas internas lotadas de inutilidades. Estava novamente pronta para ir para o mundo, absorver e atuar sabendo que teria também de voltar, restringir e resumir para sentir a tal liberdade.

*Alice Ferraz é especialista em marketing de influência e escritora, autora de Moda à Brasileira

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