Ozan KOSE / AFP
Ozan KOSE / AFP

A supermodelo Halima Aden entra na 'moda modesta' para mulheres muçulmanas

Nascida em campo de refugiados, ela aposta no emergente mercado muçulmano

Fulya Ozerkan, AFP

20 de setembro de 2021 | 15h00

Halima Aden, a primeira supermodelo a usar um hijab e posar com um burkini (um maiô que cobre o corpo), rompeu contratos com uma indústria que considera desrespeitosa e está comprometida com a "moda modesta" voltada para as mulheres muçulmanas.

Para essa modelo somali-americana, nascida em um campo de refugiados do Quênia, sua autoestima estava em jogo em uma indústria que cada vez mais se choca com seus valores.

“Desde que eu era muito pequena, esta frase 'Não mude você, mude o sistema' me permitiu superar muitas coisas”, disse ela à AFP, de passagem por Istambul. "Quando tomei a decisão de largar tudo, foi exatamente o que fiz”, acrescenta. "E eu me sinto muito, muito orgulhosa disso."

Com a decisão, a jovem, que completou 24 anos no domingo, 19, abalou o mundo da moda e influenciadores em novembro, que elogiaram sua ousadia.

Halima Aden apareceu pela primeira vez em um hijab e burkini em 2016 durante um concurso de beleza em Minnesota. Três anos depois, ela posou para a edição anual da Sports Illustrated em burkini. Na época, já era famosa. Mas, como pessoa, ela se sentia cada vez pior.

"Eles sempre me deram um lugar privado para me trocar, mas, na maioria das vezes, eu era a única a ter um pouco de privacidade. Eu via minhas jovens colegas se despindo em público, diante de jornalistas, cozinheiros, designers e assistentes”, lembra. "Foi muito chocante. Eu não poderia continuar em uma indústria onde não existe um mínimo de respeito pelas pessoas."

Halima Aden sentiu o gosto da liberdade no ano passado, quando anunciou que estava deixando as sessões de fotos e passarelas. "Nunca me senti tão aliviada. Manter tudo para mim foi como um verdadeiro veneno!", escreveu em sua conta no Instagram.

Pareceu-lhe que algumas marcas caricaturavam suas tradições, radicalmente diferentes da maioria dos outros modelos. A American Eagle substituiu seu véu por jeans pendurados na cabeça em 2017.

“Mas... esse não é o meu estilo!”, protestou no Instagram. "Cheguei a um ponto em que não conseguia nem reconhecer meu hijab como costumava usá-lo."

Esta semana pareceu mais confortável em Istambul, num evento organizado pela marca turca Modanisa, para o qual vai preparar coleções online exclusivas.

Vestidos de comprimento que vai até o chão, calças de boca larga e macacões desproporcionalmente grandes são alguns dos destaques da chamada "moda modesta", tendência crescente de cobrir o corpo.

A indústria da "modesta moda" foi avaliada mundialmente em US$ 277 bilhões, em 2019. Isso é mais de um décimo dos US$ 2,2 trilhões  da indústria da moda global e tem grande espaço para crescimento, de acordo com a DinarStandard, uma empresa de consultoria especializada em mercados muçulmanos emergentes.

De fato, nos últimos anos, Moscou, Riad e Londres organizaram desfiles de "moda modesta".

Uma tendência muito marcada no Irã, Arábia Saudita e Turquia, em cujas ruas Halima Aden vê uma grande diversidade. “O que mais gosto na Turquia, especialmente em Istambul, é que você vê mulheres que não usam hijab, ao lado das mulheres que usam”, descreve. "Em Istambul, você tem um gostinho do mundo."

A "moda modesta" decolou na última década, em parte devido à carreira de modelos como ela. Halima Aden, uma jovem sorridente, está convencida de que esta indústria tem a capacidade de resistir a crises como o coronavírus e à versatilidade das tendências.

“A 'moda modesta' está decolando, é uma das tendências que vem acontecendo há centenas de anos e vai continuar a existir por mais cem anos”, estima ela, para quem Islã e moda “são 100% compatíveis porque não há nada em nossa religião que proíba estar na moda”.

Marcas de luxo como DKNY e Dolce & Gabbana se infiltraram no nicho. Mas Halima Aden vê isso como um "símbolo". "A indústria da moda quer nosso dinheiro, mas não nos apoia nos problemas que enfrentamos."

“Para mim”, ela avisa, “a moda tem que fazer mais: você representa seus clientes muçulmanos, então é importante que sua voz seja ouvida quando enfrentar injustiças”, disse ela.

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