Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A roupa da casa

Após algumas semanas abrigados em nossos ninhos, reconhecemos o autêntico valor e sentido do casulo e, assim, começamos a reconstruir nossa intimidade com a imagem que gostaríamos de ver quando lá estamos

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 03h00

Fechados em casa, sem vida social e trabalhando quando possível em home office, a roupa que vestimos tem seu papel claramente redefinido. Estamos em modo avião nesse assunto, eu diria. Enquanto isso, o olhar se volta para o nosso casulo. Esse lugar, que hoje nos abriga em proteção, era, antes da pandemia, muitas vezes um pit stop, uma parada estratégica para reabastecimento, no caso do ser humano, dormir e comer.

Cidades grandes, seu entretenimento e serviços acenando constantemente para uma vida mais divertida fora de casa nos levaram a esquecer, ou pelo menos subestimar, a importância do “refugio”. O “voltar para casa” é símbolo do “voltar-se para si mesmo e ouvir sua consciência”, como disse Rousseau. E, se a roupa que vestimos conta por meio dessa imagem quem somos e qual época vivemos como sociedade, a casa que habitamos expõe igualmente características sobre nossa personalidade.

Esse não olhar à nossa respectiva morada tem certamente sido alterado durante a pandemia. A pintura daquela parede, que antes nos incomodava quando a olhávamos, agora grita “pedindo” atenção. O sofá não é tão confortável quanto deveria para o volume de horas que agora é usado e a cor das cortinas parece escurecer a casa. Será? Detalhes passavam despercebidos nessa casa/dormitório, que agora é aonde a vida acontece. Do acordar ao anoitecer, temos tempo suficiente para usar o ambiente em toda a sua extensão e, seja ela de qual tamanho for, possuir o espaço que agora verdadeiramente começa a nos pertencer.

Após algumas semanas abrigados em nossos ninhos, reconhecemos o autêntico valor e sentido do casulo e, assim, começamos a reconstruir nossa intimidade com a imagem que gostaríamos de ver quando lá estamos. O tapete azul da sala diz muito sobre o sentimento de calma que espero ter naquele ambiente e traz a memória do tapete da sala dos nossos pais. A estampa “toile de jouy”, que sempre pareceu infantil para uma mulher madura, após semanas de imersão em suas estampas mostra o conforto emocional que traz e que deve ser, além de mantida, integrada a outros espaços. E assim a imagem de quem somos e como queremos ser vistos vai nascendo e tomando forma através dos cômodos, cores e roupas da casa. Ao final da quarentena, esse exercício de caráter ativo trará uma reconexão com a nossa própria singularidade e, como resultado, teremos na nossa casa um reflexo de quem somos. Voltar para casa em um futuro próximo trará mais conforto e a certeza de encontrar o ninho que foi construído em detalhes com consciência e tempo na escolha de objetos que falem a nossa alma. A necessidade de possuir uma casa que conte quem somos será mais importante do que seguir modismos da semana de design italiana. Talvez, assim como na moda (onde seremos menos reféns de uma tendência ditada por desfiles de moda), em casa poderemos ser mais autorais, trazendo identidade própria para o espaço onde a nossa vida se encontrará com a própria verdade.

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