Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A pequena-grande Lia

Até ela dar as caras em determinado assunto, estamos às cegas, ignorantes do que ignoramos

Alice Ferraz, Moda

06 de novembro de 2021 | 07h00

Quando ela chegou, não sabíamos nada sobre as diferenças. Na verdade, não sabíamos nem o que não sabíamos e essa é a grande loucura da consciência e da falta dela. Até ela dar as caras em determinado assunto, estamos às cegas, ignorantes do que ignoramos. 

Mas ela estava determinada a vir e abrir o véu para iluminar parte do caminho de uma família. Lia poderia ter se mostrado por inteiro no primeiro olhar, no primeiro dia ou mês de vida. 

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Só que ela esperou para se revelar, porque sabia antes mesmo de nós que precisávamos primeiro conhecê-la sem nenhuma comparação, sem colocá-la em uma caixinha qualquer. 

Assim, suas diferenças eram só características pessoais, seus abraços e sorrisos intensos eram só o de uma pessoa profundamente amorosa, seu foco absoluto em canções eram talento nato para música. Lia se apresentava ao mundo livremente e éramos envolvidos pelo amor que crescia sem julgamentos, como deve ser. 

Mas Lia queria mais de nós. Queria que entendêssemos a fundo como ela enxergava o mundo através de seus amendoados olhos verdes. Lia fez-se vista por inteiro quando fomos apresentados especificamente ao seu cromossomo 7. 

Naquele momento, um novo universo se abriu e nos tornamos abruptamente diferentes dela. Diferentes de seu sorriso constante e de sua memória auditiva. Nós fomos colocados em caixinhas distintas. 

Nós e Lia, separados por uma barreira intransponível estabelecida pela ciência. E isso era só mais uma prova da nossa profunda incompetência para compreender o longo caminho a percorrer para chegar à lucidez. 

Por que queremos ser todos iguais? Por que acreditamos que ser igual é bom e positivo? Por que o diferente é visto com desconfiança e medo? De mãos dadas com a pequena-grande Lia entrou em uma jornada de aprendizado pessoal e coletivo. 

Lia ainda não percebe os olhares desconfiados de adultos ignorantes e nos conduz suavemente com suas mãos pequeninas e passinhos cheios de curiosidade. Lia, pequenina em corpo e enorme em presença, desafia o igual mostrando a graça do diferente.

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