Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A mulher francesa

E Paris estava lá, inteira e ainda mais linda, assim como tudo que achamos que perdemos e reencontramos

Alice Ferraz, Moda

03 de outubro de 2021 | 15h00

PARIS - E Paris estava lá, igual. Ou melhor, ainda mais linda depois de dois anos. E por que não estaria? A pandemia ressaltou em nós o medo da perda em todos os aspectos. Alguns dias antes do embarque para a Cidade Luz, uma aflição enorme dava suas caras: seria possível mesmo entrar na França? Quais documentos seriam mesmo necessários? Checa, checa de novo, entra em todos os sites para ter certeza de que não existe uma “pegadinha” esperando. Coloca tudo no celular, melhor imprimir tudo também; e se a bateria acaba? Celular pifa? E se o francês não aceitar aquele código assegurando a vacina? Medo. 

E Paris estava lá, inteira e ainda mais linda, assim como tudo que achamos que perdemos e reencontramos, ela foi valorizada aos nossos olhos. Está mais limpa? Mais interessante? Ela parece ter as cores mais vivas por ser vista por quem está ali inteira com sentidos abertos para esse momento. Pelas ruas, tudo desperta sensações e assim, nesse espírito de recuperar o que parecia perdido, ela depara novamente com a força da mulher francesa. 

O inconsciente coletivo está repleto dessas imagens: a mulher francesa é livre, determinada, desperta e lúcida. Andar pelas ruas de Paris nesse pós-pandemia depois de dois anos “presa” em uma realidade brasileira patriarcal sobre o papel da mulher; nossas estatísticas desanimadoras do abuso, da intolerância, das diferenças, é para ela um bálsamo. 

Olha as mulheres nas ruas com admiração e respeito. Elas andam com passos firmes como quem conquistou seu espaço. Não são jovens, nem velhas, não demonstram se importar com isso. São mulheres em seu dia a dia, atarefadas como todas nós. São mais sérias? Não, são mais seguras. A postura delas diz isso abertamente. Parecem ter menos medo de parecerem fortes demais, independentes demais. Lutaram por seu espaço e são conscientes da responsabilidade de ocupar esse lugar na sociedade. E, de repente, ela também se sente assim, como por “osmose” – estar perto delas muda sua própria referência. 

Ter 50 anos em Paris preenche outra superfície. É vista e olhada de outra forma. Está de volta ao jogo da vida, da sedução, do pertencimento, se sente acolhida. A quem agradecer? À intelectual Simone de Beauvoir, que revolucionou a luta feminista? Olympe de Gouges, que escreveu em 1791 a declaração dos direitos da mulher e da cidadã, ou a cientista Marie Curie, que abriu o caminho para o prêmio Nobel? Cheia de inspiração e metas, sente suas veias pulsando. Morar em Paris? Nunca pensou. Voltar ao Brasil e se comprometer, dia após dia, a fazer sua parte na busca desse ambiente para a mulher brasileira, isso sim.

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