Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A moda pede espaço

Todo novo movimento começa com alguns sinais, às vezes de difícil leitura, se não estivermos especialmente atentos. Nossas antenas devem ser sensíveis aos novos radares

Alice Ferraz, Moda

10 de outubro de 2021 | 15h00

Para quem acompanha as semanas de moda internacionais há mais de duas décadas, parecia importante estar presencialmente nesta temporada pós-pandemia, principalmente em Paris, o berço dessa cultura. Se o mundo nesse intervalo de tempo em que ficamos “trancados” se transformou em comportamento tanto quanto foi dito por especialistas ao redor do globo, essa semana deveria revelar a mudança e fazer a moda refletir este mundo novo. E foi o que aconteceu. 

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A mulher francesa

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Todo novo movimento começa com alguns sinais, às vezes de difícil leitura, se não estivermos especialmente atentos. Nossas antenas devem ser sensíveis aos novos radares. 

Olhar a cena fashion através das mídias sociais nesta estação pode nos conduzir a um erro de avaliação, apesar de essa mesma mídia ter revelado mudanças há pouco tempo. Explico: há exatos 12 anos, quando a cobertura dessas semanas era feita majoritariamente por jornalistas experts no assunto e que escondiam a sete chaves suas avaliações, a mudança acontecia exatamente através do olhar da nova mídia, as blogueiras da época, cheias de opiniões pessoais, descrevendo e detalhando esse universo em suas páginas na novíssima internet. 

Com nada a perder, sem nenhuma reputação no mercado, elas queriam oferecer informações frescas ao público além de looks do dia que inspirariam mulheres reais, mostrando como as tendências das passarelas poderiam ser usadas na vida real. Era uma forma de ver a moda até então impensável. Estávamos em uma época pré-Instagram e a tal “antena” para descobrir o que viria não era olhar para os jornalistas, confortáveis em suas posições de liderança, ditando regras que em pouco tempo não seriam mais cumpridas. 

Nessa temporada de 2021, tal comodismo de quem acredita que já chegou “lá” foi liderado pelo mercado de influenciadoras, mostrando que em pouco mais de uma década lutando pelo seu “lugar ao sol” na moda esqueceram porque ganharam esse espaço no coração do público. Looks do dia que não lembram nem de longe a tradução da moda para mulheres reais e imagens lindas sem informação alguma foram vistas à exaustão. A lição aqui parece ser o quanto rapidamente esquecemos de onde viemos e nosso foco neste trabalho. Dito isso, a revolução esperada para esse segmento está sim acontecendo e novos líderes despontando. 

Que o mundo será digital, social, real e inclusivo não ficou nenhuma dúvida durante a temporada. Marcas como Balmain e Valentino abriram espaço para o público em geral. Onde antes convites para as salas de desfiles eram disputados, agora vemos apresentações abertas presencial e digitalmente. Ninguém é tão especial para ser único – e todos são especiais e únicos é a mensagem. 

A tradicional marca de luxo italiana Valentino abriu seu desfile para espectadores das ruas. A apresentação começou dentro e modelos caminhavam fisicamente para fora com um público presencial lotando as ruas. Além disso, telões e sites conectavam e amplificavam digitalmente o evento a todos que quisessem assistir. 

A casa francesa Balmain organizou um desfile em meio a um festival de música com mais de seis mil pessoas. Já na Dior de Maria Grazia Chiuri, um picadeiro de circo criava unidade entre as modelos e nós, a plateia, sentados em bancos enormes (e não cadeiras únicas). 

A visão é finalmente de que somos mais iguais do que diferentes. Para quem viveu o abismo entre o mundo real e os “eleitos” da moda em tantas temporadas, nada mais belo poderia haver. A moda pede espaço para se encontrar com quem anda nas ruas, não só com quem consome o luxo. Ela abre espaço para quem quer olhar, estar próximo, se informar, participar. O inatingível mundo da moda se torna finalmente acessível, empático e colaborativo. 

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