Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A moda do Brasil está na moda, no Brasil

Avaliando friamente os desfiles da primavera/verão 2021 de Nova York a Paris, poucos foram as marcas que conseguiram ler nossos desejos, principalmente o desejo das brasileiras

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 03h00

Os lançamentos internacionais do verão 2021 tiveram fim com os desfiles que ocorreram em Paris na semana passada. Confesso que pela primeira vez na última década, e apesar de continuar amando moda, meu coração não deu sinais de empolgação. São seis meses de pandemia mundial e quatro de quarentena rígida. A consciência ambiental deu um salto e finalmente nossos olhos se abriram ao problema criado na natureza. Além disso, nosso modelo de trabalho foi alterado para home office – ou pelo menos para um híbrido entre presencial e virtual. Estamos “presos” em nosso País, sem poder viajar, e, mesmo quando as fronteiras reabrirem, a maior parte de nós, brasileiros, estará sem caixa para encarar dólar e euro altos.

Famílias e amigos se tornaram mais próximos e conexões casuais ficaram mais raras. Os relacionamentos são mais valorizados com um apoio mútuo que tempos desafiadores exigem. Com essas e outras tantas mudanças, o modo como nos vestimos também tinha que sofrer alterações e acredito que fashionistas ao redor do globo ansiavam por isso, mas pouco se viu da real mudança nesta temporada. Como disse um amigo, expert no segmento, “Alice, para quem são essas roupas que estamos vendo nos desfiles internacionais?”. Concordo. Talvez o tempo de reflexão, transformação, criação e produção tenha sido curto demais para uma área que precisa se preparar com muitos meses de antecedência na escolha de estampas, modelagens e tecidos. Argumentos que podem ser usados em defesa dos criadores das casas internacionais.

Mas, avaliando friamente os desfiles da primavera/verão 2021 de Nova York a Paris, poucos foram as marcas que conseguiram ler nossos desejos, principalmente o desejo das brasileiras. E nessa lacuna, nesse hiato, é que entra o nosso Brasil, nossa moda brasileira que há muito tempo sofre uma comparação incoerente com a moda internacional.

Passar a pandemia no Brasil reascendeu nosso amor à natureza, às raízes, às origens. Estamos de olho em nós mesmos, bem de perto. E assim, estilistas nacionais, artistas da moda, de alguma maneira conectados com a vibração do que acontecia, criaram coleções que são uma ode ao Brasil, coloridas, alegres, artesanais e ligadas à natureza. Tecidos e estampas foram escolhidos, criados e comprados antes da pandemia e, portanto, antes da mudança de comportamento.

Emocionei-me ao ver que criadores brasileiros já estavam olhando para o Brasil, para sua beleza exuberante, em estampas que não disfarçam cores e animais tropicais, modelagens amplas mais confortáveis para todos os corpos e o toque leve e suave como pede o verão tropical. O que veremos por aqui são coleções que sugerem um amor ao nacional, um movimento que nasce também da consciência da importância da natureza do nosso País para o mundo e que traz na maneira como nos vestimos, a mensagem.

A toile de jouy, estampa francesa clássica e febre no verão passado entre fashionistas incluindo as brasileiras, vai dar espaço a estampas de folhagens, flores e até pássaros com sobrenome nacional. Nas próximas semanas, traremos então o olhar da moda nacional e dos nossos criadores. O que os inspirou, e a expectativa para esse verão que será brasileiríssimo em tudo, incluindo a maneira de vestir.

*ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA

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