Reprodução / 100 anos de moda
Reprodução / 100 anos de moda

A moda como forma de empatia

Relações interpessoais passam por um momento novo e o caráter simbólico da roupa que vestimos envia mensagens de como estamos lidando com o novo mundo

Alice Ferraz, Moda

12 de abril de 2020 | 03h00

Com o mundo fechado em casa e passado o primeiro susto em que não sabíamos exatamente o que fazer e como conduzir nosso dia a dia, vem o ajuste e a necessidade de adaptação, característica intrínseca do ser humano.

Acordar, se vestir e ir trabalhar faz parte da vida de milhões de pessoas ao redor do mundo, cada um com a vestimenta adequada ao seu cotidiano. Uma espécie de casulo que nos protege do olhar do outro, nos coloca em uma posição segura para enfrentar nossos afazeres diários.

Muitas empresas possuem dress code, ou seja, um conjunto de regras em relação às roupas que se deve vestir no local de trabalho. A maior parte dos escritórios, no entanto, não tem um manual por escrito, mas uma norma tácita, não declarada, e percebida por todos. Executivos, bancários, empreendedores, prestadores de serviços, comerciantes. Todos agora estão fazendo reuniões virtuais para realizar suas funções ou, como prefiro dizer, novas funções. E aí? Como se vestir?

Parece bobo, superficial? Na verdade, é algo absolutamente prático. Se você não for artista, ator, cantor, diretor de cinema ou qualquer profissão que permita ser vanguarda nas vestimentas, vai querer, neste momento, estar em harmonia com seu ambiente de trabalho, seus chefes, clientes e novas regras. Executivos que usavam ternos continuam usando-os em reuniões virtuais? Mulheres, que sempre estiveram maquiadas e com acessórios que saltavam aos olhos, vão manter como regra a mesma imagem? Não fazer a barba, se você sempre fez, mostra desleixo? Causa a impressão de estar em férias? Fazer FaceTime na cama é ok?

Um empreendedor que precisa fechar novos contratos e, não podemos negar, transmitir confiança em um momento desafiador como o que estamos vivendo é fundamental, deve continuar pensando em como se apresentar. Relações interpessoais passam por um momento novo e o caráter simbólico da roupa que vestimos envia mensagens de como estamos lidando com o novo mundo.

Então, vamos ser objetivos:

* O momento é de extrema sensibilidade em todos os níveis. A roupa não deve ser protagonista, não é hora de excessos, mas de equilíbrio. A interação virtual, apesar de manter a imagem, tira nuances que, pessoalmente, podem relativizar quando exageramos no visual. A fase pede maior critério, pois, com problemas econômicos e nervos à flor da pele, queremos algo que nos traga conforto na imagem. Chamar a atenção pela roupa ou maquiagem é andar na contramão da ocasião.

* Manter exatamente o traje de sempre, tipo “eu sou assim”, mostra falta de empatia. O mundo passa por extrema transformação. Ser sensível a essa mudança transmite entendimento da situação. É menos importante afirmar sua personalidade do que enxergar o contexto e se vestir de acordo. A roupa transfere emoção quando estamos em um ambiente e o momento é de união. Hoje, o conjunto é mais importante na pintura do que a imagem individual.

Como sabemos, a moda se refere não só ao ato de vestir-se, mas também ao comportamento de uma época. Nesse sentido, em 2020, ela leva em consideração o outro, é consciente da importância do coletivo, não impõe sua presença e tenta compor com a configuração do grupo. Uma moda que nos faz parte da figura e enxerga valor sendo fração e não personagem principal. Buscamos e atingimos um ponto de individualismo que está sendo colocado à prova e cabe a nós aprendermos algo ou não.

Nosso modo de viver, como se não precisássemos fazer parte do grupo, entrou em colapso. Somos o grupo e temos recebido a mensagem clara de que só em harmonia com o todo sairemos da pandemia. A roupa é uma forma de empatia, forma de compreender emocionalmente o todo e, a partir desse símbolo feito de pano, se integrar melhor ao contexto.

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