Jordan Engle
Jordan Engle

A liberdade da heroína Edith

Sobrevivente de Auschwitz, a escritora e doutora em psicologia Edith Eger, de 92 anos, lança livro sobre a escolha do ser humano em ser livre

Alice Ferraz, Moda

27 de junho de 2021 | 10h00

Começar esse texto resumindo o currículo da entrevistada como uma sobrevivente de Auschwitz é limitar a atuação dela no mundo. Claro que ter sobrevivido ao holocausto é o divisor de águas na vida da escritora, mas Edith Eger é mais do que uma sobrevivente. 

Doutora em psicologia, trabalhando há mais de 40 anos com veteranos de guerra e vítimas de traumas físicos e emocionais, Edith é um tipo de heroína que transformou traumas em uma mentalidade de força e cura. De sua casa, em San José, Califórnia, aos 92 anos, conversamos sobre seu novo livro A Liberdade É uma Escolha (Sextante). 

Edith Eger nasceu em Kassa, na Hungria. Foi bailarina e ginasta até os 16 anos, quando, em 1944, foi enviada com a família a Auschwitz, na Polônia. Em seu primeiro livro, A Bailarina de Auschwitz (também lançado pela Sextante), Edith conta suas memórias, desde os 13 anos, quando, apesar de judeus já serem perseguidos e presos, a guerra ainda parecia distante para a família dela. 

Nas palavras da escritora, eles “usavam a negação como proteção, tentando se fazer invisíveis às ofensas”. Edith e sua família foram presos em 1944. Os pais foram assassinados em câmaras de gás no primeiro dia. Edith e sua irmã, Magda, sobrevivem em outro campo de extermínio, na Áustria, até serem libertadas por soldados americanos, em 1945. 

Prisão

Em seu novo livro, a escritora vai além de contar sua transformadora e rara história e segue seu propósito de contribuir para a cura do ser humano. A frase da mãe é a semente da enorme força que Edith carrega dentro de si: “Ninguém pode tirar o que você colocar em sua mente”. Essa força foi posta à prova a todo minuto em Auschwitz.

“Fui submetida à perda, à tortura, à fome e à constante ameaça de morte e descobri estratégias de sobrevivência e liberdade que uso até hoje. A maior prisão é aquela que construí para mim mesma, uma prisão mental. Esse livro é um guia para ajudar pessoas a identificar suas prisões e desenvolver estratégias para se libertar delas.” 

A abordagem terapêutica de Edith foi construída nesses 40 anos de estudo e prática, após a libertação. É o que ela chama de “terapia da escolha”. “Embora o sofrimento seja universal e inevitável, acredito que podemos resolver como responder a ele. Procuro estimular o poder de escolha dos meus pacientes para estimular uma mudança positiva”, conta.

A liberdade, segundo Edith, é um exercício diário. Exige esperança, consciência que o sofrimento, embora terrível, é temporário, além de curiosidade para querer descobrir o que vem depois. É o poder da escolha. Edith nos brinda com um guia prático inteligente e cheio de sabedoria. 

Quando pergunto com insistência “como exercitar essa força”, ela me responde com outros questionamentos: “Vítima ou sobrevivente? Rígido ou flexível? Orientado por problemas ou orientado por soluções? Vivendo refém do passado ou vivendo no presente? Vingativo ou capaz de seguir em frente?” Edith acaba nossa conversa com uma frase que ela faz questão de se perguntar diariamente: “Estou evoluindo ou revolvendo o passado?” Obrigada por tanto, Edith. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.