Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A jaqueta-troféu

De loja em loja, procurava emprego de férias, vendedora de loja era sua meta. Achava lindo quando, passeando, via as vendedoras bem arrumadas, cheias de opinião sobre os produtos

Alice Ferraz, Moda

05 de fevereiro de 2022 | 05h00

A primeira impressão de que só seria ouvida se tornando um ser funcional adulto, ou seja, exercendo uma função que a tornasse respeitável. Assim, pegou o ônibus rumo ao novo shopping que acabara de abrir. Na época pré-internet, ela decorava as linhas onde queria chegar para não ter de perguntar a ninguém de casa; entendia como seu primeiro passo de independência o fato de ninguém saber onde ela iria.

De loja em loja, procurava emprego de férias, vendedora de loja era sua meta. Achava lindo quando, passeando, via as vendedoras bem arrumadas, cheias de opinião sobre os produtos, explicando em detalhes as peças e ainda ganhando por isso, parecia um sonho. 

Em algumas semanas, foi entrevistada e conseguiu o cargo de vendedora-extra. Primeiro dia, orgulhosa com sua carteira de trabalho em mãos, chega meia hora antes para se vestir com as roupas da loja, sim, além de tudo ainda ganharia um jeans e uma camiseta. Era inacreditável. Aprendeu no primeiro dia a dobrar as peças. A gerente da marca explicava com maestria a forma correta para que os tecidos aparecessem melhor com a tal dobradura que ela nunca tinha ouvido falar. Tudo era novo.

Ter tíquete-refeição, almoçar fora de casa todo dia, e o melhor, conhecer tantas pessoas novas! Cada cliente que entrava fazia sua imaginação voar, quem seria? Que vida teria? Onde morava? Quantas novas vidas se cruzando com a dela dia após dia. Até que foi chamada para um desafio. A coleção de inverno havia deixado um enorme estoque de jaquetas de inverno e agora, em pleno verão, era proposto um prêmio para aquela que conseguisse vender as tais jaquetas. Era a chance que ela precisava para ir de extra para vendedora oficial. 

Nesse mesmo dia, após aceitar a disputa, resolveu colocar em prática um curso de controle de mente que tinha feito no último semestre. A ideia era usar a técnica para ajudar uma depressão diagnosticada, mas agora usaria o que aprendeu para ter foco e atrair clientes para a inusitada compra. Dia após dia, meditava em cada momento livre imaginando pessoas entrando na loja: “boa tarde, vocês têm jaqueta de frio?”, diziam elas.

Chegava a sonhar noites seguidas com a cena que morava em looping em sua cabeça. Passa novembro, dezembro e as jaquetas foram milagrosamente desaparecendo do estoque. Vencedora, a vendedora ganha o prêmio: uma jaqueta para chamar de sua. Em pleno verão tropical de 1987, alguém deve ter visto ela, toda prosa, caminhando pelo shopping, vendedora fixa vestida em jaqueta troféu. 

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