Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A intenção como virtude

Dizer que o que se fez, normalmente de errado, foi sem intenção tem sido uma manobra recorrente para evitar o reconhecimento de falhas e cobranças naturais

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2021 | 15h00

E se nos fosse dito, ainda na infância, que o que vale mesmo é a intenção? Que ter consciência daquilo que se pretende fazer é fundamental para qualquer atitude? Imaginem ter sido ensinado desde cedo que a intencionalidade é um valor a ser desenvolvido, fazendo com que ela fosse, então, uma virtude a ser ensinada como uma força que podemos ter, como algo que constitui valor.

“Ela é uma pessoa com intenções”, diriam sobre quem leva essa qualidade consigo, como sendo algo bom, aberto e transparente. Nesse raciocínio, todos aprenderiam a enxergar e realizar atos com intenção, assim como tentam aprender a ter coragem para enfrentar desafios ou serem educados uns com os outros como ato de respeito e boa convivência em sociedade. Digo isso em uma semana onde escutei em contextos diferentes a frase que me dá calafrios há muitos anos também na minha própria vida pessoal e profissional: “Ah Alice, mas foi sem intenção”. 

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Dizer que o que se fez, normalmente de errado, foi sem intenção tem sido uma manobra recorrente para evitar o reconhecimento de falhas e cobranças naturais que nos são exigidas como reparação do erro. A frase se transformou em um pretexto aceito imediatamente para remediar sem consequências os enganos muitas vezes grandes que cometemos por aí. Ações realizadas e palavras ditas sem intenção não seriam aceitas no mundo da “intenção como virtude”.

 Nesse caso, não só mostrar sua intenção, mas ser preparado para desenvolver esse raciocínio antes de falar ou agir, seria exigido culturalmente e, assim, se tornaria aos poucos parte de quem somos, uma disposição adquirida. Mas vamos aos fatos que escancaram a realidade atual. 

– Em um mundo de pandemia, pessoas se aglomeram sem intenção de espalhar o vírus. E espalham. 

– Ofendem símbolos de resistência de pessoas que são subjugadas historicamente. E machucam e ferem. 

– Políticos deixam de agir e expõem uma população inteira a falta de vacina e escolha entre o trabalho e a contaminação, ou ao lockdown e a fome. E matam. 

Tudo isso sem intenção. Pessoas escondidas e protegidas pela desculpa da falta de intenção criando não intencionalmente caos, dor e morte. E porque fazer ou dizer o mal sem intenção na nossa sociedade tira a responsabilidade ou, pelo menos, parte dela?

Com essa crônica, que abre a semana, proponho uma reflexão sobre o comportamento humano e o modo de nos apresentarmos ao mundo. Que ela comece com intenções claras e pensadas antes de atitudes equivocadas. Que sejamos responsabilizados e possamos aprender com nossas atitudes que machucam, distorcem e prejudicam sem intenção.

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