Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A falta de emoção do home office

A convivência física e o sentimento que ela gera é primordial para nosso desenvolvimento emocional em sociedade

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

Meu primeiro emprego, aos 17 anos, foi como vendedora de loja de uma conhecida marca de moda em São Paulo, na década de 1980. Lembro-me da sensação de liberdade que, a partir de então, começou a fazer parte da minha vida: depois do colégio, eu ia ao trabalho. A liberdade não era só pelo dinheiro que, claro, fazia parte do pacote, mas da enorme gama de possibilidades que se abriam na minha “pequena” vida até então cercada de cuidados e de um inabalável cerco familiar.

Como vendedora, tive que aprender mais sobre paciência com clientes, a resistência física para se manter em pé por horas e a controlar impulsos de compras, afinal, estava o dia todo em um oásis de consumo. Depois disso, fui trabalhar no escritório de uma confecção no extremo oposto de onde eu morava em São Paulo. Nesse momento, conhecer a cidade com meu guia no colo (sim, não existia Waze) tornou-se um desafio e motivo de satisfação diária. Estava mais longe de casa, mais solta no mundo que se abria muitas vezes com certa violência, mostrando-me faces até então escondidas por uma vida cheia de limites rígidos e cuidados de uma família tradicional.

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De emprego em emprego, acordar pela manhã e sair de casa para exercer meu papel como parte integrante da sociedade me fazia (e faz até hoje) sentir um “frio no estômago”, um entusiasmo que está ligado ao desconhecido, ao imprevisível que o dia pode e certamente irá trazer. Durante a semana passada, em um desses encontros fortuitos que sempre se mostram como a “cereja” do meu dia, encontrei uma jovem de 22 anos no escritório. Ela estava passando em frente e entrou para visitar a irmã, minha colaboradora há mais de uma década. Animada, cheia de atitude, cabelos molhados soltos em um descompromisso proposital com a imagem, lembrou-me de mim mesma nessa idade.

Estava a caminho de uma consulta médica de rotina, feliz ao andar na rua e me disse algo que, apesar de intuir, não tinha ainda tido o contato para sentir. “A vida de home office não tem emoção.” A frase “pulou” da sua boca em um encontro em pé no meio da empresa. “Fui contratada e, uma semana depois, estava em home office. Não conheço meu chefe pessoalmente, nem os diretores. Passo os dias sentada em Zoom e calls. Já soube que será assim por prazo indeterminado e estou procurando outro emprego”, explicou. Olhando para trás, não posso me imaginar nessa idade sem a emoção do dia a dia na rua em uma grande cidade como São Paulo. Os encontros casuais no trânsito, na rua, na copa dos escritórios para um café, os almoços com colegas, as reuniões presenciais e seu rito, a escolha do que vestir para o dia e quem sabe um happy hour, tudo fazia parte do experimentar. Experimentar a vida. 

A pandemia nos transformou e dar um próximo passo nas regras e modelos de trabalho é necessário. Pensar em como não tirar e sim somar para que a experiência de viver a aventura profissional seja melhor do que era parece ser agora o grande desafio das empresas. Estar em casa o dia todo em frente ao computador não pode ser a melhor solução. A convivência física e o sentimento que ela gera é primordial para nosso desenvolvimento emocional em sociedade.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA

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