Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A fada

A fusão das crenças em si era tão enraizada que não sabia mais o que pertencia a qual doutrina e uma ideologia própria cheia de significado se desenvolvia e a confortava ao longo da vida

Alice Ferraz, Moda

22 de janeiro de 2022 | 05h00

A cada ano, no mês de janeiro, ela esperava ansiosa pelo dia da visita. Vela, copos com água e sal, planta baixa da empresa com espaços milimetricamente traçados com os pontos cardeais em um mapa, tudo enfileirado aguardando o minucioso olhar da consultora de Feng Shui, apelidada carinhosamente de “fada”. 

A cliente, com uma fé intensa, e criada imersa no sincretismo religioso brasileiro, era devota de Santa Terezinha e também de Iemanjá, jurava que o filho quando pequeno parou de ter pesadelos quando colocaram o filtro dos sonhos pendurado em sua cama ao lado da figura do anjo Gabriel, seu protetor. 

A fusão das crenças em si era tão enraizada que não sabia mais o que pertencia a qual doutrina e uma ideologia própria cheia de significado se desenvolvia e a confortava ao longo da vida. Enquanto a medalha de Nossa Senhora estava presa à corrente, a fita vermelha da cabala seguia no pulso e a Bíblia e a Torá eram vizinhas na mesinha de cabeceira. 

A consulta marcada sempre em janeiro para que o ano pudesse se encaminhar na direção correta era de longe um de seus momentos favoritos. A fada chegava, ouvia com calma os desafios e os desejos e seguia passo a passo, mesa a mesa, sala a sala, fazendo cálculos em sua pequenina calculadora, determinando ajustes e às vezes bem mais que isso. “Aqui tem de ter a cor rosa, ali a pessoa tem de olhar para leste, e onde está a proteção da sala do futuro? Aqui realmente não temos opção, vamos abrir uma porta nessa parede! É o jeito para a energia, dizia. 

A fala com sotaque francês que vinha de um corpo miúdo e um olhar vivo conhecido há 20 anos era fielmente seguida pela cliente com caderno de anotações em punho. As duas mulheres seguiam os afazeres da cerimônia por algumas horas, seguiam um ritmo, lembravam salmos que deviam ser lidos, programavam cartas para o futuro, agradecimentos por algum passado não tão generoso e perdão por erros cometidos.

A fada contava histórias antigas e descobertas recentes, a cliente sentia a tal energia fluir melhor e pensamentos antes emaranhados em nós pareciam puxados fio a fio. Na despedida um sentimento de que participaram de uma liturgia, gratidão, carinho e fé. Alguma dúvida de que funciona?

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