Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A coragem de cada um

Em tempos de pandemia, quarentena, recessão mundial da economia, proliferação de fake news, desinfodemia, entre outros desafios, parece que a coragem necessária para continuar deveria ser tema de reflexão diária

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2020 | 03h00

Fui criada em uma grande família paulistana. Sou filha de pai militar, da aeronáutica, um homem que nasceu na década de 1920 e que foi voluntário na Segunda Guerra Mundial. Voou no lendário Senta a Pua!, grupo de aviação da Força Aérea Brasileira. Meu pai seguiu a carreira de comandante e fui criada de maneira bem rígida. Quando criança, os limites eram claros com relação aos adultos, à educação e ao que eu podia ou não fazer (e até onde podia “abrir minhas asinhas”, como diziam na época). Na adolescência, recebia um olhar atento e tivemos muitas conversas sobre quem eu estava me tornando; sobre a importância do certo ou errado, valores que partiam da criação que meus pais tiveram. Um senso de valor, como sentido da vida, foi pilar da minha educação em casa. Da escolha da profissão às amizades, passando por valores como honestidade, verdade, responsabilidade e trabalho, eram elementos necessários e levados em consideração em todas decisões pequenas e grandes. Nada era aleatório. Fui ensinada a pensar e a avaliar atitudes, e não só as palavras.

Nesse contexto e como alguém que esteve na Segunda Guerra Mundial, meu pai colocava a coragem como um desses valores. Ser corajoso em casa era importante e trazia mérito, ser corajoso era ultrapassar meus limites, ter uma força que me faria transpor desafios. Minha mãe sempre foi uma mulher corajosa para seu tempo e fez escolhas difíceis. Entre elas, a de se separar do primeiro marido para ficar com meu pai em uma época que não existia o divórcio – e mulheres desquitadas eram mal vistas na sociedade. Minha mãe foi pela vida desafiando preconceitos; uma cidadã do mundo e, hoje, aos 80 anos, me oferece mais uma aula de coragem ao encarar a velhice com inteligência para continuar se transformando. “Minha cabeça funciona como sempre, mas meu corpo me impõe restrições que nunca tive, estou reaprendendo a viver”, diz ela, com a coragem de quem encara a verdade.

No meu caso, a coragem foi uma virtude adquirida. Certamente pela vontade enorme de ser como meu pai e minha mãe, eu me esforçava para ser corajosa. Cada passo dessa trajetória rumo à coragem me desafiava e cada conquista dentro da minha alma infantil era motivo de orgulho. Fui me fortalecendo durante os anos. Mas hoje, conto aqui algo que vem de um lugar escondido: tenho medo de avião. Sabe-se lá por que, voar, até hoje, me parece algo assombroso e inacreditável. Para a filha de um piloto, e que tinha como rotina passar mais da metade do ano em aviões, isso soa inacreditável e talvez ridículo, mas assim é.

No começo da minha carreira, perdi oportunidades por não embarcar e tinha que lidar com duas frustrações, o medo de voar e a culpa por ter deixado ele vencer. A partir de um forte trabalho interno, decidi que iria mesmo com medo. Assim, a cada voo, a fonte de coragem necessária para entrar no avião é colocada à prova e usada até a última gota. A cada balanço inocente do grande pássaro de metal (sim, dou nomes aos aviões), embarco e exercito essa virtude, a coragem, que apelidei carinhosamente de “músculo”, acreditando que quanto mais se exercita, mais forte ele fica.

Em tempos de pandemia, quarentena, recessão mundial da economia, proliferação de fake news, desinfodemia, entre outros desafios que estamos todos passando, me parece que a coragem necessária para continuar deveria ser tema de reflexão diária.

“A coragem não é a ausência de medo, mas a capacidade de superá-lo e dominá-lo por uma vontade mais forte. Força da alma. Não a coragem dos duros, mas dos heróis. Coragem como condição de qualquer virtude, pois como um justo lutaria pela justiça sem coragem?”, diz o filósofo francês André Comte-Sponville em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. A coragem não como saber, mas como decisão. Tempos que pedem coragem, que nesse caso também é o contrário não só da covardia, mas da preguiça. Preferiríamos muitas vezes não agir ou fugir, mas é preciso a virtude da coragem para enfrentar e continuar. 

A coragem de cada um, singular e pessoal que, apesar do cansaço, apesar do medo, é necessária. 

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