Editora Planeta
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‘A confiança é o oxigênio da sociedade’, diz o historiador Rutger Bregman

Para o pensador holandês, a falta de confiança gera mais burocracia e, por extensão, mais advogados

Alice Ferraz, Moda

25 de dezembro de 2021 | 05h00

“Mudar sua visão sobre a natureza humana, olhar para os humanos de uma forma radicalmente nova, implicará consequências para sua própria vida.” Essa foi a frase que deu início à conversa com um dos mais proeminentes pensadores europeus da atualidade. O holandês Rutger Bregman é taxativo ao afirmar que uma mudança de visão sobre a humanidade nos conduzirá a transformar a forma como nos organizamos em sociedade e como democracia e que, obviamente, acarretará mudanças pessoais. 

Em seu mais recente livro, o best-seller internacional Humanidade: Uma História Otimista do Homem, Bregman traz uma visão – em suas palavras, realista – sobre o caráter cooperativo e de confiança do homo sapiens que “nasce para aprender, se relacionar e interagir e que tem no ‘corar’ a quintessência da socialização”. Segundo o autor, corar é uma expressão unicamente humana. “Pessoas coram e com isso demonstram que se importam com o que as outras pessoas pensam, fomentando assim confiança e socialização.” 

NORUEGA. No final de um dos anos mais desafiadores da década, o historiador chama atenção em nossa conversa para uma das recorrentes pesquisas feitas por sociólogos do World Value Survey a cada ano desde a década de 1950. A pergunta feita é: “em média, você acredita que as pessoas são confiáveis?”. Segundo Bregman, não existe nenhum país na Terra com menor número de pessoas que confiam umas nas outras que o Brasil. 

Na última pesquisa realizada pelo projeto, só 5% dos brasileiros afirmaram poder confiar nas pessoas em comparação aos 70% na Noruega. “A confiança é o oxigênio da sociedade, confiar faz tudo funcionar melhor. Se você não tem confiança, você tem burocracia, mais advogados. Na minha opinião, devemos fazer tudo que pudermos para aumentar o volume de confiança em uma sociedade.” 

NÍVEL. Como, então, podemos aumentar o nível de confiança no outro nos tempos em que vivemos? Bregman afirma que a pandemia provou mais uma vez que a vasta maioria dos seres humanos quer fazer o certo e contribuir para o bem comum. “Temos de reconhecer que bilhões de pessoas ao redor do globo mudaram radicalmente seu modo de viver para parar a disseminação do vírus e isso é algo impressionante. Podemos sempre olhar para quem não usa máscara e se mostra contra a vacina, ignorando a realidade, mas a grande maioria fez o que era necessário, mesmo sendo difícil e frustrante do ponto de vista pessoal e profissional, incluindo homens de negócio”, conclui. 

Se Bregman parece ingênuo à primeira vista, com o decorrer da conversa vemos que suas explicações se baseiam em pesquisas importantes e contundentes. Ele traz exemplos convincentes e atuais e uma teoria revolucionária sobre a base evolutiva do homo sapiens. “É exaustivo viver sempre preocupado com o que as outras pessoas estão tramando por trás de você. Assumir que os seres humanos são programados para a bondade, confiar e esperar esse comportamento dos outros é uma forma libertadora de se viver e, possivelmente, você terá de volta exatamente o que espera.” 

O livro de Bregman está na lista do também historiador e best-seller Yuval Noah Harari, autor do premiado Sapiens: Uma Breve História da Humanidade como “o livro que me fez enxergar a humanidade sob uma nova perspectiva”. Para a última semana de 2022, pode ser uma boa aposta de leitura.

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