Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A casa caiu

Ler as notícias tristes em constante crescimento começou a ter um peso avassalador

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 15h00

Semana passada, a casa caiu. Sem saber exatamente como, a trinca que estava ali do mesmo tamanho há mais de um ano abriu um pouco mais em poucas semanas. A estrutura, então, foi comprometida e, em alguns dias, veio tudo abaixo. Quando a pandemia começou, o primeiro ímpeto de sobrevivência trouxe à tona um ânimo fora do comum. Dias e noites criando, planejando, executando, operando as transformações necessárias. Entraram em gestação ideias, novas parcerias, projetos. Em equilíbrio e com foco em tudo, foi tomando corpo e se desenvolvendo. Claro que tiveram momentos de angústia, mas foram totalmente suplantados por determinação. Só que os meses viraram um ano e a rachadura que tinha aparecido da noite para o dia, tendo sido avaliada como “não-estrutural”, agora mostrava outras características.

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Ler as notícias tristes em constante crescimento começou a ter um peso avassalador. O que adiantava estar bem em um mundo onde a cura estava tão distante? Deixar a dor entrar foi uma abertura de fração de segundo, uma fresta, e assim se entregou, merecidamente. Queria poder olhar as verdades desagradáveis de frente e chorou o choro de um ano de dor. Quanto mais chorava e sofria, mais a trinca abria até não conseguir suportar o peso que antes parecia tolerável. Outras dores antigas aproveitaram o caminho aberto e se uniram para serem revisitadas. Abraçou a todas. Deixou-se deitar nesse lugar de inação e lembrou-se dos dias sem esperança que já vivera, das perdas, do luto.

Começou, então, a tentar lembrar-se de como já havia saído antes desse lugar sem felicidade. E lembrou. Lembrou que, quando a tristeza chega nesse ponto de colocar a casa em risco, não existe mais espaço para se entregar. Existe “sobreviver, lutar, ajudar e tratar”, como diria o filósofo francês Comte-Sponville. Existe, nesse ponto, a sabedoria para todos os dias e para todos nós, uma sabedoria da ação e do amor. A sabedoria que aponta para uma direção, do máximo de felicidade no máximo de lucidez possível. E assim começa a semana. 

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