Reuters/Alessandro Garofalo
Reuters/Alessandro Garofalo

A carta aberta de Giorgio Armani

Estilista italiano fala sobre a crise de valores vivida pelo mercado de luxo

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 03h00

No começo de abril, em carta aberta ao WWD, veículo americano de credibilidade especializado em moda e considerado uma voz de alto impacto na indústria, o estilista italiano Giorgio Armani, de 85 anos, fundador de sua marca homônima e dono de uma fortuna pessoal estimada em 5,4 bilhões de euros, enviou uma mensagem clara e direta ao mundo da moda.

Antes de comentar o conteúdo da carta, é importante lembrar o legado que Armani construiu nas últimas décadas – por isso, sua credibilidade para ser ouvido mundialmente. Passou de designer independente ao número 1 do poderoso grupo de moda que construiu, realizando desde coleções de alta costura a prêt-à-porter, passando por acessórios, perfumes, produtos de beleza, hotéis e até floriculturas.

Armani é figura atuante no mercado, workaholic assumido e praticamente o “padroeiro da moda italiana”. Criou os uniformes da força policial daquele país e é o primeiro nome que enxergamos ao pousar no aeroporto internacional de Milão – sua marca toma de ponta a ponta o maior hangar de Linate, entrada para capital da moda italiana.

Voltemos à carta. Nela, Armani repensa o conceito e o tempo do ciclo de vida das coleções. “O declínio da indústria da moda como a conhecemos começou quando a moda luxo adaptou conceitos de fast fashion. Luxo não pode e não deve ser rápido”, diz ele. “Não faz o menor sentido uma das minhas criações estar em uma loja por somente três semanas e se tornar obsoleta. Considero isso imoral. O cliente deve voltar a valorizar a autenticidade do luxo, apreciar sua construção.”

Armani cita o desperdício de dinheiro nos grandiosos desfiles realizados nas temporadas de lançamento mundo afora e vai fundo quando fala que essa ação de comunicação vai se tornar inapropriada e até vulgar; e esse tipo de comportamento é inaceitável daqui para frente. Claro que, em momentos de crise, valores são postos à prova e novos modelos têm a oportunidade de surgir. “A turbulência do momento é enorme, mas a chance de discutir o que está errado está em nossas mãos”, conclui.

Armani não está sozinho e sua voz tem ecoado alto. Segundo Carlos Ferreirinha, presidente da MF Consultoria e expert no mercado de luxo, o estilista falou importantes verdades sobre um calendário mundial esquizofrênico com estações invertidas, liquidações sem sentido, envolvido na cultura do excesso e em uma economia circular que não acontece. “Um homem, que chega aos seus 80 anos deixando um legado incrível e decide, por causa da crise gerada pela covid-19, realizar as mudanças necessárias, é algo surpreendente. Poucas marcas tomaram a decisão verdadeira e genuína de dar passos tão corajosos como ele diz que fará”, diz o consultor.

Em conversa com a jornalista, consultora e escritora de moda Gloria Kalil, a certeza da indignação de umas das profissionais mais respeitadas do Brasil é clara. “Armani tem razão. Teremos que redimensionar todo o mercado de moda e talvez, finalmente, possamos voltar a valorizar as criações. O consumidor está mimado e não tem tempo nem de usufruir o que consome”, diz.

Nos últimos dez anos, estive em praticamente todas as semanas de moda do mundo. A cultura do excesso citada pelo filósofo Gilles Lipovetsky era evidente e se mostrava a cada dia mais poderosa. Víamos um consumidor aflito por novidades constantes para tapar um buraco emocional cada vez maior. Queremos ter nossos desejos satisfeitos a qualquer custo e, assim, nos tornamos seres mimados, tomados por desejos de consumo constantes que devem ter respostas imediatas por parte de marcas estressadas para criar a cada semana algo novo. Um círculo vicioso que corrompe o potencial humano para a criação legítima e de nossa apreciação dessa criação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.