Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A cabeleira

Os cabelos brancos a colocaram em um molde que representava uma determinada imagem e que a fez sentir o mesmo medo, agora, de se perder de vista, de perder sua identidade

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 03h00

Na maternidade, a mãe ficou inconformada e a pulseirinha no pequeno pulso virou sua obsessão. “No berçário são todos iguais”, disse ao marido quando viu a bebê. “Você não me deixa tirarem essa pulseirinha dela para nada, senão perdemos a menina.” Era para ser a última filha do casal e foi esperada como um presente dos céus. Foi uma menina doce, meiga e quieta, tão quieta que os pais a levaram ao pediatra com a suspeita de que ela tivesse algum “probleminha”, dizia a mãe. Não tinha, e mostrou que adorava falar logo na primeira infância.

Falava sozinha, contava histórias sem fim e cantava pela casa logo pela manhã. O pai dizia que tinha a voz de “taquara rachada” – a menina até concordava, mas continuava a falar. Na escola, a professora de música a chamou depois da aula e pediu para que ela cantasse “menos e mais baixo”. Ela entendeu que era pela voz, concordou com a professora e ficou um pouco triste. Na aula, então, cantava baixinho, mas só na aula. A voz podia não ser sua maior qualidade, mas tinha outras e sabia disso.

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Cresceu e seu maior orgulho era a cabeleira negra e volumosa que emoldurava o rosto e trazia a força dos fios densos também para sua personalidade. Não era a mais bonita em uma família de tantas mulheres, não tinha certamente a melhor voz, mas, seu cabelo, ah, esse sim a deixava em primeiro lugar. Se apegou nessa força real com uma energia bruta, sua juba era poderosa. Essa relação saudável em toda sua fisicalidade teve uma longa e amistosa duração, até que se descobriu grisalha. Nesse momento, em frente ao espelho, uma sensação de desconexão com sua identidade foi reveladora.

O cabelo não era só branco, tinha também outra textura, outro volume, outra ondulação. A imagem refletia não mais a sua personalidade única, mas um padrão que a colocou de imediato na mesma forma e medida que outras. Assim como os bebês nos berçários pareceram todos iguais para sua mãe que sentiu medo de a perder de vista, os cabelos brancos a colocaram em um molde que representava uma determinada imagem e que a fez sentir o mesmo medo, agora, de se perder de vista, de perder sua identidade. Como se os cabelos brancos a definissem como parte e não como núcleo individual da sua própria persona.

Decidiu por meses enfrentar a sensação e determinada contou histórias para si e para os outros sobre como esses novos cabelos vinham também com significados em uma nova fase cheia de aceitação. Em certo ponto nem as histórias contadas para si mesma faziam mais sentido. A busca pela imagem de força que a cabeleira negra trazia e que a acompanhou pela vida falou mais alto. Ela pintou os cabelos até atingir a cor exata, hidratou para que tivessem o toque de antes, fez escova para que as ondulações ficassem como já tinham sido, se olhou no espelho, se reconheceu e, cheia de saudades, chorou. Ainda não era o momento dessa aceitação, ouviu de um sábio, e entendeu que não era mesmo. 

Se está certa, se está em negação, não sabemos. Mas está feliz.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA

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