A bula da roupa

No novo normal do mundo da moda, a etiqueta interna vai dizer mais sobre quem somos do que a etiqueta externa ou o logo da marca

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 03h00

Nossa nova realidade dentro da quarentena trouxe não só reflexões de como será o mundo quando sairmos, como também nos tem feito enxergar fatos cotidianos que, repetidos dia após dia, não têm mais como serem negados. São presenças que se fizeram notadas. Quantas roupas “precisamos” por dia, por semana ou pelo mês todo?

Nossas vidas sociais, que quase inexistem nesse período, nos provam que, quanto menos intensa é nossa interação social, certamente trocamos menos de roupa.

Sem encontros para happy hour, jantares, festas com amigos ou mesmo com familiares, temos menor necessidade de mudar de roupa.

Home office traz as mesmas consequências. Em casa, mesmo com reuniões virtuais, vestimos roupas mais casuais que, antigamente, quando nos encontrávamos presencialmente, eram bem mais elaboradas. Somos vistos em “meia tela” e mostrar nossos novos modelos de sapatos é absolutamente desnecessário.

Conclusão: nos vestimos para sermos “vistos” por outros, para transmitir uma mensagem, para causar impacto, para contar quem somos e qual a nossa origem. Mesmo que esse retrato não seja verdadeiro, é ele que queremos que o mundo veja e acredite.

Quando essa figura dentro de casa e pouco exposta tem de entrar mais em contato consigo mesma, o que realmente importa na roupa que vestimos? Conforto, claro – estar sozinho e desconfortável não faz o menor sentido. Então, tecidos agradáveis ao toque e que deixam o corpo respirar são bem-vindos.

A cor? Sim, usamos cores que nos agradam e não aquelas que estão na moda. Tem quem sinta que a energia do vermelho lhe trará intensidade; tem quem precise do branco para se sentir em paz. Nesse novo normal, o importante é mais o sentir do que o mostrar. Nessa direção, e depois de passada nossa reclusão, talvez esses dois pontos deveriam andar de mãos dadas para sempre.

Olhando mais profundamente o que vestimos em tempos em que a roupa fica mais horas em nossos corpos, nos acompanhando em movimentos limitados por nossas casas, buscamos conhecer melhor suas matérias-primas. A roupa que “incomoda” me diz na etiqueta que é 100% poliéster. Talvez, pela primeira vez, isso nos faça entender por que esse tecido feito com recursos não renováveis, a partir de substâncias químicas extraídas do petróleo bruto ou do gás, com grande utilização de água e também a partir de garrafas plásticas recicladas, não deixa o corpo respirar e é tão criticado. 

No novo normal do mundo da moda, a etiqueta interna vai dizer mais sobre quem somos do que a etiqueta externa ou o logo da marca. Será como a bula dos remédios que lemos com tanta atenção para não prejudicarmos nosso corpo com dosagens indevidas.

A “bula” da roupa nos mostrará se estamos ou não prejudicando o meio ambiente, se a roupa que vestimos diz a verdade sobre quem somos. A partir dessa bula, encontraremos um caminho seguro para contribuir para toda a cadeia que tenta adivinhar nossos desejos inventando tendências. Não será mais preciso elaborar. O mais importante, certamente, será ser.

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