Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A bolha

A vida, fora da bolha, é feita de desafios, de perigos, de gramas que não são verde esmeralda

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2020 | 03h00

O apartamento em São Paulo é o sonho conquistado. A escola dos filhos fica ao lado, sem perigo algum para as crianças se locomoverem. Assim, a mãe fica tranquila para fazer sua academia, almoçar com as amigas e realizar cursos de conhecimentos gerais que têm mudado e ampliado sua percepção de mundo. A casa de campo é perfeita, com jardim verde quase esmeralda e barulho de pássaros. Os vizinhos são muito educados – e, na verdade, se tornaram mais que vizinhos, hoje são grandes amigos. Os filhos crescem juntos em liberdade e segurança. São vizinhos na cidade, mas também no campo e na praia, pensam parecido em tudo; "a família que escolhemos”, dizem em total sintonia.

Eventualmente, em algum fim de semana, têm que receber a “família que não escolhemos”. Se protegem, então, do olho gordo da cunhada, da tia, da prima. Nesses fins de semana, o clima muda, “a energia não é boa”, dizem. Discordam em quase tudo e, assim, a mãe tenta equilibrar a vontade dos filhos que não querem sair de sua zona de conforto para ceder a primos que são tão estranhos. Os parentes dão opinião sobre a casa, a vida, têm sempre algo a dizer. Mas esse encontro acontece raramente – ufa, é um preço leve a pagar.

Estranho, então, que uma angústia constante a persiga. Será a falta de algum hormônio? Talvez de vitaminas? Exercício não pode ser, ela está em dia com a corrida e as aulas de pilates. Mas a angustia persiste e insiste até que a terapia surge como uma opção e até sugestão na conversa com as amigas. Ninguém precisa saber, mas talvez conversar com alguém faça bem a ela. Marca a primeira consulta e entra no consultório decidida a não deixar que nada mude sua vida perfeita, nem mesmo o terapeuta. Está tudo bem, só preciso conversar, é uma fase e vai passar. Ela precisa de apoio.

Só que a angústia não passa. O terapeuta faz perguntas desconfortáveis que são levadas em conversas sutis para dentro de casa, onde o marido e os filhos percebem e não gostam. Talvez tenha sido um exagero procurar a terapia, afinal, está tudo bem. A grama esmeralda, os pássaros, os amigos. Está mesmo tudo bem.

Só que o espaço do vazio cresce nesse “tudo bem”. Porque a vida não é feita desse material.

A vida, fora da bolha, é feita de desafios, de perigos, de gramas que não são verde esmeralda. É feita da convivência de diferenças, às vezes irreconciliáveis, com que temos que lidar. É feita da família que diz o que pensa, discorda sem medo de quem somos ou nos tornamos. E nesse espaço cheio de discordâncias nasce o incômodo, mas também a conversa franca, a variedade, outros pontos de vista, nascem ideias novas e vontades estranhas, que nos constroem como unidade.

No entanto, a vida na casa com a grama esmeralda é confortável demais e lá fora a vida é perigosa e desafiadora demais. Sair desse espaço agride olhos e ouvidos. São gostos, cheiros e paisagens que não foram escolhidos nem editados como em seu feed de mídias sociais, sua maior distração e, porque não dizer, maior fonte de informação. “Quero ver o que gosto, tenho esse direito”, diz, como se a realidade coubesse dentro da tela do próprio celular, em que é feita uma curadoria de imagens por ela e por algoritmos. Sim, ela tem o direito e a liberdade de ceifar a própria vida, esmagada entre muros seguros. Mas a angústia cresce.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA

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