Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

A beleza da diferença

A tecnologia nos oferece união por meio de aparelhos que nos conectam. Temos uma imensa oportunidade de evoluir e ampliar nosso entendimento com a visão do outro

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 19h00

Para quem, como eu, consulta astrologia, semana passada foi um prato cheio para análise. Entramos no mês de virgem, o que já me faria prever as críticas severas que ouviria em reuniões ao longo da semana. Para os leigos em astrologia – e que ainda têm a intenção de me acompanhar, mesmo sabendo sobre meu interesse pelos astros – explico: o signo de virgem é conhecido pelo intenso senso crítico, poder analítico, observação afiada e pronto para detectar “erros”. A semana prometeu e entregou.

Desde que comecei a trabalhar com o mundo digital e, mais precisamente, as mídias sociais, o que me encanta e desafia a cada dia é o olhar do outro. O conteúdo compartilhado nas plataformas usadas para expor esse olhar diz muito sobre cada pessoa e sobre o mundo em que ela vive. Como se fôssemos autores, diretores, roteiristas e diretores de arte da nossa própria realidade, colocamos em uma foto, em um texto ou vídeo o que enxergamos, entendemos e vivemos. Independentemente de ser feio ou bonito.

O julgamento, opinião do outro, acredito, deve ser ouvido com parcimônia. “É que Narciso acha feio o que não é espelho”, diria Caetano Veloso ao chegar a São Paulo, sem entender “a beleza de suas esquinas e a deselegância discreta de suas meninas”. O bonito para Caetano era o que ele já conhecia – e levou tempo para descobrir o belo em nossa cidade.

A mídia social causa desconforto quando a imagem que enxergamos não faz parte da nossa curadoria, do que gostamos, entendemos, aceitamos ou julgamos certo. Porque gosto se discute – e muito! Falo isso com certa experiência, pois participei da entrada das mídias sociais no mundo da moda e assisti ao desconforto gerado por gostos distintos. Estilistas foram consagrados por seguidores e não mais por críticos de moda com anos de estrada. Vi uma mudança sem precedentes na comunicação desse universo. Lados que não conseguiam absorver algo diferente e que tiveram de passar por um processo de aceitação do olhar do outro.

Ao integrar o ambiente das mídias sociais, somos todos diariamente bombardeados com imagens. Podemos dar nosso like e fazer comentários quando o que é apresentado nos agrada ou simplesmente deixar de seguir ou fazer comentários negativos se o que é exposto não faz parte do nosso gosto. Mas hoje, quero propor um terceiro caminho. Abrir um novo olhar. Como Caetano que, em princípio, não viu “graça” em São Paulo, porque “nada entendeu”, podemos olhar as imagens do Instagram como quem olha o desconhecido com curiosidade e não com escrutínio de quem busca o erro. Tentar enxergar ali novas formas de se vestir, falar, se maquiar e dançar, ver a beleza das experiências regionais de um Brasil tão multicultural e plural.

O que é feio aqui, é bonito lá. A saia curta demais aqui, é leve e fresca para o calor de lá, sendo aqui e lá pontos de referência geográfica que contribuem para abrir nossas cabeças e não para fechá-las com um senso crítico provinciano, limitado a uma forma restrita de ver o mundo.

É natural termos nosso “grupo”, pessoas conhecidas que seguimos e que nos seguem nas mídias sociais, com as quais temos afinidade de gostos. A partir disso, a tecnologia pode contribuir para nos levar a uma nova experiência, a conhecer o novo, o que acontece fora do ambiente seguro em que estamos. Com intensa experiência na área, acreditei estar preparada, até imune, para o julgamento, enquanto realizava uma apresentação sobre novos “olhares”, na qual contextualizava o potencial de clientes que uma marca de moda poderia conquistar. Não estava. A pandemia talvez tenha me deixado até menos tolerante.

A parte de mim que aceitava, agora rejeita a visão superficial de quem acredita ser dono do “bom gosto”. A tecnologia nos oferece união por meio de aparelhos que nos conectam. Temos uma imensa oportunidade de evoluir e ampliar nosso entendimento com a visão do outro. Aqueles que conseguirem compor, levando em conta que sempre existem ganhos e perdas, talvez sejam capazes de enxergar o quanto os ganhos foram maiores.

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