2020: o ano delas

2020: o ano delas

Moda reúne importantes vozes de áreas distintas para celebrar os avanços de 2020. Aqui, Luiza Helena Trajano, Natalia Pasternak, Nina Silva e Preta Gil falam sobre seus papéis neste conturbado e poderoso período

Ana Carolina Ralston e Marilene Ramos, Moda

12 de dezembro de 2020 | 16h00

Fotos: Hugo Toni e Jacques Dequeker 

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Narciso no espelho

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Styling: Antônio Muller

Não há dúvidas de que a máxima criada pelo escritor grego Esopo (620 a.C. - 560 a.C.) “A União faz a Força” seja mais atual do que nunca. Mulheres ao redor do mundo têm conseguido dar passos cada vez mais largos, tendo como simples receita o desejo compartilhado de lidar com o que é necessário. A revista Moda reuniu nesta edição quatro forças que representam o poder da transformação no Brasil. São elas: Luiza Helena Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil; Nina Silva, empresária, executiva e fundadora e CEO do Movimento Black Money; Preta Gil, cantora, atriz, apresentadora e empresária; e Natalia Pasternak, microbiologista e presidente do IQC, Instituto Questão de Ciência. Referências em suas respectivas áreas, elas também têm em comum as mídias sociais como motor para potencializar suas ações, inspirando e provocando seguidores a olharem para o futuro do nosso país e do mundo. Em um bate-papo virtual, elas discutem sobre esses feitos e os que estão por vir.

MODA: Como começou a preocupação de vocês com as mulheres?

LUIZA TRAJANO: Diria que não é só com as mulheres, mas com a sociedade. Acredito que possamos agir fortemente na solução dos principais problemas que afetam o Brasil.

PRETA GIL: Vivi adversidades desde garota, com preconceito, com racismo, com misoginia e gordofobia. Sempre usei meu carisma, minhas capacidades e a minha força interior para lidar com esses fatos. Nós, mulheres, sempre tivemos que fazer mais, dobrado, triplicado, para provar às pessoas. Historicamente, a sociedade se acomodou dentro do padrão do patriarcado hétero-branco-normativo, e é assim que é. Se não furarmos essa estrutura com ações mais vigorosas, não mudaremos nada. Um bom exemplo disso é a atitude do Magazine Luiza, que foi supercriticado por ter feito um recrutamento de trainee só para pretos. E a empresa está mais que certa! Não adianta tratarmos esse assunto sem ações como essa. A desigualdade é fruto de opressões que vêm de séculos e séculos e você não muda uma sociedade sem atitudes radicais e necessárias. Não adianta.

NINA SILVA: No meu caso, sempre existiu a necessidade de legitimar e justificar que eu era especialista nas minhas áreas de atuação e que tinha as maiores e melhores certificações. Mesmo assim, a todo momento, independentemente de quais eram os resultados e benefícios para os projetos, eu precisava justificar por que não estava servindo café ou atuando como secretária. Sendo uma pessoa negra, sempre houve um prejulgamento a partir de uma visão de mundo limitada, racista e misógina. Muitas vezes chegava na hora e local marcados para ouvir: mas a Nina, a diretora do projeto não veio? O aprendizado foi pegar todo o meu esforço e resultados para construir o meu espaço e a minha possibilidade de levar pessoas junto comigo. Ações como as desenvolvidas pelo Magazine Luiza são primordiais e necessárias para um reequilíbrio dentro desses espaços altamente embranquecidos. 

LUIZA HELENA TRAJANO: Esse foi um programa realizado para corrigir uma distorção dentro da nossa empresa. Prezamos pela diversidade, verificamos a falta de líderes negros e entendemos que o trainee é uma porta de entrada para novos líderes em qualquer empresa. Por isso, resolvemos fazer uma ação afirmativa para corrigir essa falha. Nosso país tem uma dívida racial gigantesca, e qualquer ação afirmativa para promover o acesso que sempre foi negado por meio de um racismo estrutural, seja por cotas ou programas específicos, deveria ser praticada por toda a sociedade. A sociedade precisa aprender a respeitar as diferenças e encontrar pontos de vista diferentes.

MODA: Vocês movem muitas empresas e pessoas. Como reagiram à pandemia, que obrigou todos nós a diminuirmos nosso ritmo?

NINA SILVA: Tive a vantagem social de poder estar em quarentena. No âmbito de trabalho, a partir do segundo mês da pandemia, as coisas voltaram a ter a necessidade de acontecer. Consegui colocar 400 famílias pretas para seres auxiliadas com uma renda básica. Coloquei 600 lojas de pé dentro de um marketplace. Tudo isso pensando que não podemos ficar impactadas ou estagnadas com a ameaça do vírus sabendo que ele impacta outras pessoas de forma muito mais cruel.

PRETA GIL: Fui contaminada na primeira leva do coronavírus no Brasil. Foi um grande susto, porque, naquele momento, ainda era tudo muito confuso, os médicos não tinham respostas, a gente não sabia como se comportar, o Brasil ainda não tinha entrado em quarentena. Durante a pandemia, acabei me dedicando muito a Mynd, porque nesse período a gente cresceu muito, tivemos que contratar muita gente, as ações na internet cresceram, marcas tiveram que se digitalizar, então, como já trabalhávamos com o digital, fomos muito requisitados. Artisticamente não senti vontade de ter que fazer algo no mesmo ritmo ou me forçar a produzir algo fora do tom do momento, vivi meu ócio criativo focando na produção de conteúdo e dando voz a quem me interessava e precisava de meu espaço.

NATALIA PASTERNAK: Não é comum na ciência comunicarmos as coisas em tempo real, geralmente publicamos as pesquisas quando elas estão prontas. Com a criação do Instituto Questão de Ciência, em novembro de 2018, passamos a levar informação de qualidade tanto para a população, como para gestores e parlamentares, garantindo que o cidadão comum tenha acesso a ela para que possa fazer suas escolhas baseadas na ciência. Com a pandemia, a busca por informações relacionadas à saúde aumentou. Mas fomos percebendo também que o texto, a escrita, atinge apenas uma certa camada da população que está acostumada a ler jornal. Existe, contudo, um outro público que precisa dessa informação, que assiste apenas ao YouTube, Instagram ou TikTok. Assim, resolvemos nos adaptar.

MODA: O Grupo Mulheres do Brasil tem crescido. No começo, em 2012, era composto por 50 representantes. Hoje são mais de 75 mil mulheres pelo mundo. A união faz a força?

LUIZA HELENA TRAJANO: Conseguimos criar um grupo integrado, com mulheres extraordinárias que trabalham muito e atuam de forma voluntária para a melhoria do Brasil em diversos comitês que contemplam causas que precisam de atenção. Uma delas foi a criação da carta para candidatas mulheres nestas eleições, que assumiram compromissos básicos de atuação em causas a favor da sociedade.

PRETA GIL: Temos que imaginar que há 40, 50 anos uma mulher não podia votar, não podia viajar sem a autorização do marido. É importante que as mulheres entendam que a sociedade foi dominada por um patriarcado, ou seja, por homens. Homens que o tempo inteiro criaram as mulheres para duelarem entre elas, para não serem parceiras, para se odiarem entre si, para se criticarem. Eles sabiam que a nossa união seria desfavorável ao projeto deles. Agora estamos vendo que a desunião e a animosidade entre os lados não são satisfatórios para a humanidade, queremos igualdade, estarmos lado a lado em um projeto maior livre de manipulação. A melhor relação que pode existir é a do equilíbrio e somatório de forças.

NINA SILVA: A união tem que estar pautada em respeito, em pensar no desenvolvimento e crescimento em esferas diferentes, esferas profissionais, pessoais e não somente em terceiro setor. Então toda a intencionalidade que nós temos de ação precisa estar pautada no olhar sobre o ser humano e o ser humano vivendo em diferentes contextos. Precisamos ser transparentes e de coração aberto para que as pessoas entendam que viemos em contextos diferentes. Por isso, precisamos de ações intencionais distintas. Qualquer tipo de possibilidade de colocar diferentes agentes no contexto decisório estratégico vai ser totalmente crucial para o desenvolvimento e uma transformação. A inclusão não só na representatividade, mas também no pensar de maneira diversa, e as mulheres e pessoas negras estão incluídas nisso.

MODA: Como a tecnologia e as redes sociais têm colaborado para amplificar as iniciativas, sejam elas na área de comunicação, economia, política ou moda?

NATALIA PASTERNAK: O TikTok é uma plataforma com público muito jovem. É muito legal usá-la também para levar conhecimento. Na primeira busca por “vacinas”, os trinta primeiros vídeos que apareceram eram de antivacina. Quando fui convidada pela ONU a fazer parte de uma iniciativa coletiva com grupo de cientistas ao redor do mundo, e que juntos poderíamos levar informação de uma forma mais leve e lúdica, pensei: a ONU tem razão, a gente precisa ocupar esse espaço. E foi o que fizemos.

NINA SILVA: A moda está cada vez mais digital, cada vez mais conectada e com possibilidade de chegar ao seu público a partir da tecnologia atual. A questão nesse universo é que precisamos ir além da moda eurocêntrica, que muitas das vezes é o que chamam de alta moda – que coloca o resto do mundo como “baixa moda” ou “moda alternativa”, marginal. É necessário incluir e ter diversidade de pessoas em todo o processo, não apenas nas passarelas, mas no processo de criação. A tecnologia tem um grande desafio por precisar de pessoas com uma capacitação específica. Muitas vezes, no primeiro momento, não serão pessoas diversas que conseguem ter acesso a essa educação, que custa mais. Percebemos, então, que há muito a ser conquistado e reinventado.

LUIZA HELENA TRAJANO: O pensar coletivo é fundamental. Durante a pandemia, fiz centenas de lives por todos os cantos do Brasil, e nunca canso de me surpreender com a quantidade de mulheres maravilhosas e criativas que fazem a diferença em seu trabalho e em suas comunidades e são transformadoras de realidades. Somos muitas, espalhadas por este país gigantesco, unidas e fortes no propósito de fazer do nosso país um lugar melhor. E sabemos que as mulheres são muito mais preparadas para lidar com o orgânico. Neste caos que estamos enfrentando, quem tem essa característica pode atuar de forma decisiva.

Beleza: Krisna Carvalho, Robert Estevão e Ziel Moura

Produção de moda: Júlia Viana e Amanda Teixeira

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