Carlos Silva|Estadão
Carlos Silva|Estadão

Zélia Gattai chega ao centenário como 'menina atrevida'

Para homenagear a mãe, que morreu em 2008, Paloma Amado lança livro com fotos feitas pela memorialista

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2016 | 04h00

Pituco foi, provavelmente, o passarinho mais bem relacionado da história brasileira. Na companhia de Jorge Amado e Zélia Gattai, ele conheceu Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, conviveu com alguns dos ícones da nossa cultura, cantarolou com João Gilberto. Vivendo livre no apartamento da família no Rio (e depois em Salvador), ele aproveitava as janelas abertas para dar uma volta pelo Beco das Garrafas – e foi apelidado por Jorge Amado como o ‘pássaro bossa nova’. Nos mais de 19 anos de convivência com a família, de 1957 a 1977, o pássaro sofrê foi, também, um dos principais modelos Zélia.

Publicar um livro com parte dessas fotografias foi a forma encontrada por Paloma Jorge Amado de homenagear a mãe, cujo centenário de nascimento é celebrado neste sábado, 2. O pré-lançamento de Pituco ocorre hoje, na Casa do Rio Vermelho, e Paloma será a guia dos visitantes que quiserem conhecer a lendária casa de sua família. A programação continua no Pelourinho, na casa que será dedicada à autora, ao lado da Fundação Jorge Amado. Ela ainda passará por reformas, mas já vai abrigar uma exposição de fotos feitas pela autora de Anarquistas, Graças a Deus. Outros eventos estão sendo programados para a semana nos dois espaços.

“Estou tão emocionada. Ando chorando como uma bezerra desmamada. Literalmente. Ela está muito dentro de mim”, comenta Paloma às voltas com a festa para sua mãe, que preferia não ser chamada de escritora, porque, como dizia, “escritor era Jorge Amado”. Memorialista, então – para quem a escrita e a fotografia foram artes complementares. E uma contadora de histórias requisitada primeiro pelos filhos, depois pelos netos, e sempre ouvida com atenção em qualquer roda de conversa, lembra Paloma.

Filha de imigrantes italianos que tentaram fundar, com outros conterrâneos, uma comunidade anarquista em plena selva brasileira, Zélia Gattai nasceu em São Paulo no dia 2 de julho de 1916. Foi nesse ambiente político que ela cresceu, e são essas as memórias que ela conta em seu livro de estreia, Anarquistas, publicado em 1979, quando ela já tinha 63 anos. Pegou gosto.

Em 1982, lançou Um Chapéu para Viagem, em que conta sua vida com Jorge Amado e as histórias da família dele. Mais tarde, em 1987, saiu Reportagem Incompleta, uma fotobiografia do casal. Muitos outros se seguiram a este - quase todos livros de memórias -, vieram alguns prêmios e homenagens e, em 2001, foi eleita para a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras. Ela estava vaga desde a morte do marido.

Zélia Gattai morreu em 17 de maio de 2008, aos 91. “Nunca foi velha, muito menos decrépita. Morreu lúcida, saindo de cadeira de rodas para votar, fazendo várias coisas”, lembra Paloma.

E como uma memória puxa a outra, Paloma conta sobre o dia em que, insegura esperando a negativa da mãe, pediu para ir à passeata contra a ditadura. Zélia foi junto, para a vergonha da filha adolescente. Subiu em poste, deu palavra de ordem, fugiu da polícia. Logo Paloma entendeu que aquilo deveria ser motivo de orgulho. “E me orgulho muito. Ela era danadinha. Uma menina atrevida, como dizia a minha avó. E conseguiu chegar ao centenário se mantendo assim.”

Não havia limites para Zélia. “Foi escrever aos 63. Furou a orelha aos 70”, comenta a filha para quem a mãe era a doçura em pessoa sem deixar de ser forte, firme e rígida. Querida por todos e engraçada.

Projetos. Paloma Amado diz que não há inéditos de Zélia Gattai, mas muito material de Jorge Amado (romances, não) e dos dois juntos. Agora ela está empenhada em publicar seu livro de crônicas. Não é porque ela é filha de duas figuras importantes da literatura brasileira que as portas das editoras estão abertas, ela diz. Se não encontrar ninguém para editá-lo, vai bancar o projeto, como fez com Pituco.

Depois disso, deve mergulhar, com a Fundação Jorge Amado, nas caixas de cartas do escritor. E já sabe qual deve ser o próximo livro: a correspondência com João Ubaldo Ribeiro. Isso depende, claro, do consentimento da família de Ubaldo. Se der certo, a diversão é garantida. “É de chorar de rir. As cartas trocadas na época da eleição de João Ubaldo para a ABL já dariam um livro”, comenta. Mas isso deve demorar um pouco.

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