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Zé Rubem

Com tantas afinidades eletivas, a amizade tinha tudo para durar a vida inteira, como durou

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 03h00

“Você vai adorar conhecê-lo. Vocês são almas irmãs.” Quem me convenceu disso e patrocinou o encontro foi minha colega de redação do Correio da Manhã, Fernanda Gurjan. Minha suposta alma irmã era o seu amigo Zé Rubem. Advogado da Light e contista nas horas vagas, cinéfilo e leitor compulsivo, Zé Rubem, afiançou-me Fernanda, era “um charme”. Era. Irresistível.

Já havia lido e me assombrado com os contos de seu segundo e então recém-publicado livro, A Coleira do Cão. O de estreia, Os Prisioneiros, ele me daria de presente em nosso primeiro aperto de mãos. Na dedicatória, uma ressalva (“este livro é diferente da Coleira”), uma combinação (“conversaremos depois”), um abraço e um pedido de desculpas por não possuir “exemplar em melhor estado”. 

Fernanda não exagerara. Com tantas afinidades eletivas, aquela amizade tinha tudo para durar uma vida inteira, como durou. Na maior parte do tempo, falávamos de filmes e leituras. Líamos todos os escritores americanos que conseguíamos absorver. Trocávamos descobertas e novidades editoriais com a mesma exultação de crianças trocando figurinhas. 

“Já leu The War of Camp Omongo?” E assim foi que apresentei Rubem Fonseca a Burt Blechman. E depois a There Must Be a Pony, de James Kirkwood. Era difícil recomendar-lhe um autor que, apesar de estreante, já não conhecesse, pelo menos de nome. 

Ora se lhe pedi uma entrevista. Uma única vez. Debalde, como adora dizer Jaguar. Nunca insisti, por respeito ao seu renitente recato. Por um bom tempo amigos de visitas mútuas porque vizinhos no bairro de Laranjeiras, nada anotei do relativamente pouco que conversamos sobre sua vida pregressa como boxeador, jogador de basquete, atleta aquático (chegou a nadar três vezes por semana do Morro da Viúva à Praça 15), ajudante de mágico, revisor de jornal, delegado de polícia (que nem Dashiell Hammett, que foi detetive da Agência Pinkerton) e professor de administração de empresas da Fundação Getúlio Vargas. 

Quando, nos anos 1980, a Folha me encomendou um perfil dele, amealhei depoimentos de vários amigos em comum e o transformei num Cidadão Kane sem rosebud. Uma saída honrosa, quero crer. Como ele não lia o que a seu respeito e de seus livros escreviam, nunca soube se gostou ou não do perfil. Não o encontrei no arquivo de recortes que uma caprichosa admiradora organizou e me foi cedido por ele quando iniciei a curadoria da reedição de sua obra pela Agir, em 2009.

Quando o conheci, ele dividia seu panteão literário entre Kafka, Pound, Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos, Bellow, Philip Roth, Donald Barthelme (que incluiria como personagem no conto Correndo Atrás de Godfrey, em Lúcia McCartney), Guimarães Rosa, Campos de Carvalho (por coincidência primo de Fernanda Gurjan), Cony, Clarice Lispector, Autran Dourado. Considerava Drummond um dos três maiores poetas da língua em todos os tempos; Camões e Pessoa, os outros dois. 

Nos últimos anos, praticamente só lia poesia, cultivando o carinhoso hábito de selecionar versos e remetê-los, laconicamente, aos amigos, por e-mail. Eram da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen os últimos que dele recebi.

Nos albores de nossa amizade, por fidelidade às nossas raízes lusas, íamos amiúde a restaurantes portugueses do centro da cidade. Zé Rubem era frugal, mas não abria mão de um bom vinho (Periquita, Acácio, Terras Altas), complementado por um Grão Vasco, se houvesse um queijo Serra da Estrela e torradas sobre a mesa. Parecia só almoçar pelo prazer de arrematar o repasto com um charuto, que tanto podia ser um plebeu Suerdick como um Havana Médio ou um Partagas D-4. Costumava buscá-lo no velho prédio da Light, na Marechal Floriano. Na segunda ou terceira vez que lá fui, Zé Rubem, ainda preso numa reunião com Antonio Gallotti, presidente da Light, passou à secretária um livro “para eu me distrair” enquanto o esperava: Finnegans Wake, de James Joyce. Um gozador high brow. 

Morria de inveja de seu monitor fósforo âmbar e seu editor de texto WordPerfect. Naquela época, final dos anos 1980, reinado do DOS, eu ainda me humilhava à frente de um prosaico monitor fósforo verde onde as palavras brotavam de um editor de texto nacional, Carta Certa, que na primeira oportunidade troquei pelo WordPerfect, pirateado pelo tradutor e agente literário Thomas Colchie. 

Copiar os dez disquetes (floppy disks) do WP foi mole. Já seu extenso manual nos obrigou a mofar mais de meia hora com os pés apoiados num hidrante próximo à Copiadora Leblon. Daquele papo fortuito em plena Ataulfo de Paiva, guardei apenas a irritação que o filme Dodeskaden, de Kurosawa, causara no meu bucaneiro informático. Para Zé Rubem, o pior defeito que um filme podia ter era ser piegas. 

Quase fomos parceiros num projeto de traduções de romances soi-disant pornográficos de superior qualidade literária para a editora Artenova, que afinal naufragou, poupando-me de ir a pique sozinho com uma tradução de Black Book, de Lawrence Durrell. Não me recordo de outra parceria do gênero, embora me considere cúmplice de sua mudança da Francisco Alves para a Companhia das Letras, articulada durante um almoço em homenagem à agente literária espanhola Carmen Ballcells, e da cessão dos direitos de adaptação ao cinema de A Grande Arte a Walter Salles, sacramentada em outro inesquecível almoço, na Marisqueira de Copacabana. 

Gostaria de falar sobre a presença, quase obsessiva, do cinema em sua obra. Talvez o faça no Aliás da próxima semana. 

 

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