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Xamanismo e irreverência marcam novo projeto do poeta Douglas Diegues

Nos poemas do autor, o guarani, falado por 99% da população paraguaia, ganha proeminência e confere exuberância ao texto

Sérgio Medeiros, Especial para O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2015 | 04h00

Recentemente, na Casa das Rosas, em São Paulo, o editor Evando Rodrigues e a ilustradora Adriana Peliano lançaram Mínima Alice, de Wilson Bueno. Não se trata de uma edição qualquer, pois, além de ser uma homenagem aos 150 anos de publicação de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, o volume saiu pela Katarina Kartonera (http://katarinakartonera.wikidot.com/livros), uma das muitas microeditoras que pululam pelo País afora e que vêm publicando livros artesanais com capa de papelão colhido nas ruas ou adquirido de catadores de papel.

Já há algum tempo, os estudiosos reconhecem a existência de um amplo movimento editorial “cartonero” (termo espanhol que se refere a cartão e àqueles que o recolhem e vendem), não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, cuja meta tem sido pôr em circulação textos breves de diferentes autores, novos ou consagrados, que são vendidos de mão em mão, em diferentes espaços, e, às vezes, até em livrarias, como acontece atualmente com os livros da cartonera Yiyi Jambo – www.yiyijambo. blogspot.com –, de Douglas Diegues, que dispõe de espaço próprio em Ponta Porã, MS, cidade da editor. A biblioteca do Memorial da América Latina dispõe, além disso, de um acervo expressivo dessas publicações “cartoneras”, e oferece aos leitores paulistanos todos os títulos da citada Katarina Kartonera, que nasceu em Florianópolis, SC.

Douglas Diegues é um dos pioneiros desse movimento, mas, sobretudo, é um poeta irrequieto e criativo que já mereceu um acurado estudo da professora Myriam Ávila, da UFMG, que foi publicado em 2012 na coleção Ciranda da Poesia, da editora Uerj, do Rio. Neste ano, esse carioca criado na fronteira do Brasil com o Paraguai está lançando um novo trabalho, Tudo lo que você non sabe es mucho más que todo lo que você sabe, pela Vento Forte Cartonero (https://www. facebook.com/ventonortecartonero), uma cartonera de Santa Maria, RS. Entre os autores publicados pela Vento Forte, pode-se citar dois nomes consagrados, o peruano-mexicano Mario Bellatin e o brasileiro Zuca Sardan. Como o título do livro de poesia de Douglas Diegues já o sugere, ele utiliza uma língua híbrida, na qual o português e o espanhol convivem pacificamente.

Em todos os poemas do autor, um terceiro elemento, o guarani urbano, falado por 99% da população paraguaia, ganha, no entanto, proeminência, conferindo ao texto uma exuberância verbal que o próprio autor denominou imprecisamente, a meu ver, de portunhol selvagem, mas que é, como se percebe, mais do que isso. O termo “selvagem” talvez se refira ao fato de que essa língua ainda não foi (nem deseja ser) domesticada, pois, ao que tudo indica, continuará incorporando, a cada momento e conforme as circunstâncias, novos vocábulos, oriundos de diferentes idiomas, como, por exemplo, o inglês.

Quanto a esse aspecto linguístico irreverente, é paradigmática uma novela póstuma de Wilson Bueno que a cartonera Yiyi Jambo de Diegues lançou no fim do ano passado: Mascate, que incorpora às três línguas mencionadas também o árabe, a fim de abranger todos (ou quase todos) os falares da região da tríplice fronteira, onde as culturas da Argentina, do Brasil e do Paraguai se mesclam, absorvendo também o coreano (e a cultura oriental), para lembrar um quinto ingrediente muito importante para Douglas Diegues. Aquilo que Bueno fez na ficção, Diegues hoje faz na poesia: dar voz a um mundo que parece se recusar a aceitar a própria ideia de fronteira. Não estou sugerindo, porém, que Diegues seja discípulo do autor paranaense, morto precocemente em 2010; ele é um poeta com voz própria e um projeto literário inconfundível, embora assuma explicitamente uma dívida para com a obra daquele, em especial Mar Paraguayo, de 1992.

Uma característica de Diegues é trabalhar com “tradução”, vertendo textos alheios, geralmente de grandes poetas do passado, para a sua língua literária. Um dos melhores momentos do livro é a homenagem ao poeta modernista espanhol Leopoldo María Panero, que morreu numa instituição psiquiátrica e a quem os autores cartoneros, reunidos em Assunção, veem como irmão. O livro fecha com um dos melhores textos de Diegues, a versão de um mito do Chaco, El Xamãn Milagroso, no qual se lê: “Ante dos sucessivos fracassos, disseram al jefe: Basta com isso. Ndoikoi. Non se pode matarlo”. O termo “ndoikoi”, segundo nota do autor, significa “não funciona, non serve”, e remete ao fato de que o xamã indígena, depois de sofrer vários atentados, ressuscitou intacto, no mito e no poema.

TUDO LO QUE VOCÊ NON SABE ES MUCHO MÁS QUE TODO LO QUE VOCÊ SABE. Autor: Douglas Diegues. Editora: Vento Norte Cartonero, Santa Maria, RS (64 págs.,R$ 10)

* Sérgio Medeiros é poeta, tradutor e ensaísta. Entre outros livros, publicou A Formiga-Leão e Outros Animais na Guerra do Paraguai (Iluminuras, 2015)


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