Mariana Ignatios/Divulgação
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Wilson Alves-Bezerra apresenta o livro de poemas 'Vertigens'

Professor de literatura na UFSCar, tradutor e colaborador do 'Caderno 2', ele lança o livro neste sábado, 5; veja vídeos 

Moacir Amâncio, Especial para O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2015 | 05h00

Proclamar a sujeira da poesia é apenas um lugar-comum, desde Baudelaire, pelo menos. Portanto, a intertextualidade e a carnavalização nos textos de Vertigens, série de 29 prosas poéticas de Wilson Alves-Bezerra devem apontar para outra coisa. Seriam pequenos capítulos que podem ser lidos de maneira independente, formando quadros de linguagem, ou uma narrativa sem começo nem fim e que poderia ser lida a começar de qualquer capítulo. Provavelmente, cada leitor escolherá o próprio primeiro capítulo dessas reflexões, ou dessa reflexão sobre a crise da linguagem e a literatura. Por isso, se for o caso, poderia pinçar o sétimo fragmento, no qual encontraria um ponto de partida e chegada e sintetizaria a teorização implícita em cada linha deste pequeno livro, capaz, no entanto, de se desdobrar ao exigir do leitor um diálogo muito próximo à letra, para que se associe ao processo criativo da obra. 

Trata-se de um texto - o capítulo ou poema número VII - que reivindica o acaso, ok, e a incerteza incorporada à expressão que absorve o referencial e o transforma em fluxo do verbo sempre inconcluso. A certeza do narrador é de que sua única chance será ceder à compulsão aceitando este fato básico: ele não passa de um “escritor de rascunhos”, pois “mais importa rabisco que tipografia. Sempre tive certezas, nunca borrachas”. 

A compulsão vem do atestado de vida final, o próprio corpo, suas contingências e condicionamentos físicos. Aí está o lance premente: permitir que a obra se faça em progresso e incorpore o escritor, a animalidade, em seus júbilos e estertores, uns ligados aos outros. Por exemplo, no caminho entre a cama e o banheiro ou vice-versa, ele confunde pia com vaso sanitário (um erro enfático) e “tomba para a cautela acadêmica vir lhe decifrar os rabiscos”. Tomba embriagado de sono, álcool ou de náusea, ou tudo isso junto.

A cena escatológica zomba da possível pretensão acadêmica, propondo a destruição de conceitos também a essa entidade impossível chamada “leitor comum”, isto é, alguém disposto a redescobrir, com o texto, chaves de rompimento e abertura para o exercício crítico-criativo, sem o qual ele, o leitor, será o primeiro a desaparecer como tal levando também o autor para o vazio. A vertigem do rabisco tem seu ponto máximo em matéria de humor e gastronomia no macarrônico Malangue Malanga (IX), que mistura francês, inglês, castelhano, de um ponto de vista luso-brasileiro. O grande humorista Costinha aparece ali num lance metonímico e iluminador. Deboche, caviar com farofa dará tudo na mesma. O melhor vinho batizado com cachaça de cabeça. 

O autor lê trechos da obra

VERTIGENS

Autor: Wilson Alves-Bezerra

Editora: Iluminuras (72 págs., R$ 36) 

Debate e autógrafos hoje (5), às 15 h. Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94), tel. 3775-0002 

 

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA NA USP, AUTOR DO LIVRO DE POEMAS 'ATA' (RECORD) E DE 'YONA E O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA E CABALA' (NANKIN/EDUSP)

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