Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

William Finnegan e Deborah Levy falam de surfe e George Orwell na Flip

Escritores dividiram uma mesa na sexta-feira, 28, em Paraty

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2017 | 11h27

ENVIADO ESPECIAL / PARATY - Um ensaio autobiográfico do escritor inglês George Orwell, Por Que Escrevo, foi o ponto de partida para o encontro entre o americano William Finnegan e a sul-africana Deborah Levy. Ele contou como foi o processo de “sair do armário”, ou seja, o correspondente de guerra e de distúrbios sociais assumir que é um veterano surfista (tema que rendeu um livro, Dias Bárbaros, pela Intrínseca, premiado com um Pulitzer). E ela falou sobre um ensaio pessoal, Coisas que Não Quero Saber (Autêntica), uma espécie de resposta ao texto de Orwell. O encontro ocorreu na noite de sexta-feira, 28, na última mesa do dia da 15ª Flip.

“Precisei deixar a África do Sul aos 9 anos, depois que meu pai, um professor e ativista político, saiu da cadeia”, contou Deborah. “Ele ficou cinco anos preso, por causa do regime do apartheid.” A família se mudou para a Inglaterra, onde a adolescente Deborah desafiou normas de conduta para se firmar como escritora. “Meu sonho era ser uma existencialista, como Sartre, Simone Beauvoir, Camus. Queria escrever em um café da Rive Gauche. Mas, por causa do dinheiro curto, meu café foi o de uma parada de caminhoneiros, que vendia ovos, bacon, salsichas. Para não chamar atenção naquele ambiente tão masculino, eu escrevia compulsivamente nos guardanapos, como uma Beauvoir de rodoviária”, divertiu-se.

Já Finnegan relembrou o temor que teve no início, quando revelou ser um surfista em meio a jornalistas engravatados, acostumados a tratar com políticos igualmente de ternos, um ambiente no qual rapazes que se equilibravam em pranchas não passavam de alienados, “sem saber o que se passava na política do mundo”. Como o livro fez sucesso mesmo entre leitores não-surfistas, o temor foi, aos poucos, diminuindo, até terminar com a consagração no Pulitzer.

Finnegan riu quando poucas pessoas perguntas levantaram as mãos, depois que o mediador Ángel Gurría-Quintana perguntou quem, na plateia, surfava. “Surfe e livros realmente não combinam”, gracejou. “Não vale a pena surfar nas páginas de um livro. Mas, tudo bem – já há muita gente querendo pegar as grandes ondas. É, surfe não é legal. Por favor, não surfem!”

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