Walter Salles lança livro, filme e promove debate com Jia Zhangke

Documentário sobre o chinês estreia neste sábado na Mostra

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 03h00

Há um momento de Jia Zhangke - Um Homem de Fenyang em que o grande autor chinês emociona-se a ponto de chorar. Ele se lembra de seu pai, que tanto sofreu durante a Revolução Cultural e que se preocupava por ele. Diante da crítica feroz à sociedade chinesa de O Mundo, de 2004, o pai lhe disse que, na época do camarada Mao, o filho seria acusado de ser de direita. Ou seja, contrarrevolucionário. Jia, espontaneamente, diz que seu pai lhe passava a ideia de quem nunca teve um momento de felicidade. E Jia chora, por isso.

Foi em 2007 que a Mostra realizou a primeira retrospectiva de Jia Zhangke no Brasil. O diretor chinês estreou no longa com Pickpocket, apresentado em Berlim no mesmo ano em que Walter Salles ganhou o Urso de Ouro por Central do Brasil - em 1998. Leon Cakoff, o sr. Mostra, chamou Salles para integrar uma mesa de debate com Jia. Depois, saíram para jantar. A curiosidade inesgotável de Salles o impulsionava a seguir fazendo perguntas ao colega. Leon teve a sacada: “E se a gente fizesse um livro? Um documentário?”. Passaram-se sete anos, Leon não está mais aqui, mas seu sonho se concretiza na noite deste sábado. Walter Salles estreia na Mostra seu documentário sobre Jia. A Mostra também lança, em parceria com a Cosac Naify o livro O Mundo de Jia Zhangke, coorganizado por Salles e Jean-Michel Frodon. Estarão os três - Jia, Salles e Frodon - no Cinesesc. Após a exibição, o trio vai autografar o livro. E debater com o público.

Por que um livro sobre um autor ainda jovem como Jia? Salles vai logo respondendo: “Pela pertinência e singularidade de sua obra. Para Jia, o cinema é uma forma de registrar a memória em mutação. Seus filmes fazem o retrato das pessoas comuns, aquelas que, como ele diz, não são detentoras do poder. São filmes feitos em digital, que colocam a questão das novas tecnologias. São filmes de cinéfilo. Mesmo quando dá um testemunho importante sobre o mundo que se transforma, Jia está sempre investigando e colocando em discussão o próprio cinema”.

O filme e o livro que começaram a nascer há sete anos exigiram preparação. Desde o início, Salles sabia que teria de filmar em Fenyang, província de Shanxi, no norte da China, onde Jia nasceu. A cidade aparece em muitos, quase todos os seus filmes. Com uma equipe reduzidíssima, o diretor foi à China no fim do ano passado. Durante dez dias, colado ao diretor, Salles revisitou os locais de filmagem e os filmes. O francês Frodon juntou-se ao grupo para entrevistar Jia. Antes disso, já haviam se encontrado em Paris. Salles ri quando o repórter diz que ele nos engana. Ele enquadra o colega com a Torre Eiffel ao fundo. Ouvem-se, na trilha, a música e trechos do diálogo do cultuado Acossado, Jean Luc Godard. Na verdade, não é a Torre Eiffel, mas sua réplica no parque temático de The World.

O mundo de Jia Zhangke - o cinema de Jia - transita entre documentário e ficção. E, assim como fala do pai sem que Salles e Frodon lhe perguntem, Jia faz umas revelação que pode surpreender. Quando tudo está dando muito certo numa filmagem, ele se angustia porque percebe que está trilhando território conhecido. Não está ousando. No mundo da internet, tudo é globalizado. Seus filmes, muito proibidos na China, circulam em cópias piratas. Para os amigos de colégio, Jia “é o nosso orgulho”. Para as tias e avós da vizinhança em que foi criado, Jia é “lailai”, o moleque. Seu cinema transborda afeto - pelo ser humano, pelos espaços/lugares que desaparecem (e permanecem na memória). Há em Jia, como em Walter, uma ética. Do cinema, do humano, do social. Jia, o filme, é belíssimo.

O MUNDO DE JIA ZHANGKE

Autor: Jean-Michel Frodon Org.: Jean-Michel Frodon e Walter Salles

Tradutora: Eloísa Araújo Ribeiro Editora: Cosac Naify / Mostra Internacional de Cinema de São Paulo  (320 págs., R$ 59,90)

TRECHO

O cinema de Jia Zhangke é um retrato sensível das transformações aceleradas pelas quais a China passa desde o período da Revolução Cultural , impulsionadas pela mais recente abertura do capitalismo. Na longa entrevista concedida aos organizadores deste livro, o diretor intercala sua formação visual e seu encantamento pelo cinema com lembranças de sua vida. Através de seus experimentos cinematográficos e na ficção, conhecemos os processos sociais e econômicos de uma civilização cuja metáfora é a imagem da demolição...

ENTREVISTA - Jia Zhangke - 'O que me atrai são as pessoas como eu, que não detêm o poder'

O repórter estava presente quando Jia Zhangke recebeu o primeiro exemplar do livro que a Mostra lhe dedica. Ele levou o exemplar ao coração. Tudo nesse homem transpira afeto.

Como recebeu o desejo de Walter Salles e Leon Cakoff de lhe dedicarem um livro?

Fiquei lisonjeado, mas não acreditava que fosse adiante. Walter é um grande diretor. Por que perder tempo filmando um colega? Foi uma experiência muito rica, que me fez repensar muita coisa.

Seus filmes documentam as mudanças da China. Até que ponto isso nasce de um pensamento organizado?

Na verdade, foi um processo. Depois de Pickpocket, meu interesse pelas pessoas e pelos lugares me levou a indagar o tipo de cinema que queria fazer. O que sempre me atraiu foram as pessoas como eu, que não detêm o poder. Num país em mutação, filmá-las é retratar a mudança. Sou muito grato à câmera. Se não fosse por ela, que me permite filmar, minhas sensações ficariam exclusivamente íntimas. Com a câmera posso ampliar e universalizar o que permaneceria pessoal.

Seu cinema também é produto das novas tecnologias, do digital. Como encara isso?

Para o tipo de cinema que queria fazer, era importante que fosse barato, que os equipamentos fossem móveis. A internet eliminou fronteiras, o mundo é global. Já manifestei minha inconformação ao Bureau de Cinema da China. Na era das redes sociais, qual o sentido de impedir a exibição de um filme? Uma das minhas maiores emoções foi quando me mostraram a cópia pirata de Plataforma. Os filmes encontram seu caminho, à margem do poder.

E o seu filme de artes marciais?

É um sonho que ainda pretendo realizar. Algo dele já existe em Um Toque de Pecado.

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