Volume 2 do 'Cânone Gráfico' traz obras do século 19 que investigam a condição humana

Publicação tem também desenhos que mostram o modernismo do romance

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2015 | 05h00

O escritor americano Russ Kick já foi apelidado de “arqueólogo da informação” pela quantidade de antologias que organizou. No Brasil, uma tem ganhado destaque: Cânone Gráfico, que reúne boa parte da melhor literatura mundial de todos os tempos, mas apresentada sob a forma de desenhos criados por artistas diversos. São três volumes e a Boitempo, dentro da sua Coleção Barricada, lançou o primeiro no ano passado e acaba de enviar o segundo para as livrarias.

Agora, o foco está nos clássicos do século 19, quando a noção de moderno chega à literatura no formato do gênero romance. São dessa época obras como Orgulho e Preconceito (Jane Austen), Frankenstein (Mary Shelley), Moby Dick (Herman Melville) e Folhas da Relva (Walt Whitman), entre outras. Mas Kick não se preocupou apenas com romances, escolhendo ainda contos, poemas, cartas e até textos filosóficos, como Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche.

O charme, porém, continua nas ilustrações. Nesse volume, há a participação de um brasileiro, Kako, que mora em São Paulo e foi responsável pela versão de Crime e Castigo, de Dostoievski. E o trabalho excepcional de Matt Kish, ilustrador amador que lançou um volumoso livro com desenhos inspirados em Moby Dick - ele fez uma ilustração para cada página da obra que, na mais recente tradução brasileira, conta com 656 páginas. Para o Cânone Gráfico, foram selecionados 12 trabalhos. 

Com o Cânone, você quis que os artistas deixassem sua marca distintiva nas obras. Como foi o trabalho neste Volume 2? 

Há muitas visões novas neste Volume 2. Os artistas realmente imprimiram sua maneira pessoal de ver as coisas nessas obras dos anos 1800. Orgulho e Preconceito tem uma grande quantidade de desenhos; Walden foi elaborado num estilo extremamente simples; Os Miseráveis é colorido e experimental; O Retrato de Dorian Gray é uma colagem de ilustrações do século 19 e o texto, escaneado de uma primeira edição do livro. 

O Cânone Gráfico inclui também escritos filosóficos de Freud e Nietzsche e trechos de textos religiosos. Como decidiu o que incluir? 

No caso dos três volumes, comecei com uma lista das obras de literatura mais prestigiadas, as únicas cuja ausência ficaria evidente. No caso do Volume 2, sobre o século 19, incluí Moby Dick, Orgulho e Preconceito, Huckleberry Finn, Crime e Castigo, Walden, a poesia de Emily Dickinson, etc. Depois acrescentei livros que não estão necessariamente na primeira lista, mas também são conhecidos, lidos e ensinados. Incluí algumas obras de filosofia, ciências, religião e literatura infantil. E incluí também algumas coisas que são clássicas de uma forma inusitada, como The Hasheesh Eater (clássico da literatura sobre drogas) e Vênus das Peles (clássico da literatura erótica). 

E o que você diria sobre a diversidade, que é a marca do trabalho? Quero dizer, há adaptações bem claras e também interpretações mais abstratas.

Eu, deliberadamente, selecionei artistas com enfoques e estilos extremamente variados. Queria que o livro fosse um enorme caleidoscópio de estilos e formas visuais para adaptar obras literárias. 

Você organizou também The Graphic Canon of Children’s Literature, que trata especificamente da escrita dedicada às crianças. É um assunto curioso porque, com frequência, a literatura infantojuvenil, normalmente, é também sombria, estranha, e tem um enorme potencial visual. O que pensa a respeito? 

Foi muito divertido reunir tudo isto. A literatura infantil é tão exuberante que foi uma decisão clara quanto ao volume seguinte de adaptações. Grande parte dessa literatura é sombria e estranha, de maneira que o livro não é para crianças. Outro aspecto interessante é que os livros infantis foram ilustrados e transformados em filmes tantas vezes que achamos que sabemos como são determinados personagens, como Alice no País das Maravilhas, Peter Pan, Branca de Neve, etc. Foi ótimo ver os artistas oferecendo versões totalmente novas dessas figuras tão familiares.

CÂNONE GRÁFICO II

Organizador: Russ Kick

Editora: Boitempo (488 págs., R$ 132)

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