Vladimir Sorókin usa o humor contra o império russo

Em mesa divida com a americana Elif Batuman, escritor reafirmou sua vocação para demolir a megalomania de seu país

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2014 | 18h15

PARATY - Poderia ter sido um encontro político repleto de críticas ao dirigente russo Vladimir Putin e ao primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, mas a mesa dedicada à literatura russa, nesta quinta-feira, 31, na Flip, ficou restrita quase que exclusivamente ao tema proposto pelo mediador Bruno Gomide (a especificidade da literatura russa) aos escritores Elif Batuman, nascida nos EUA de pais turcos, e o russo Vladimir Sorókin (o primeiro russo da Flip), ambos autores de dois lançamentos que têm em Dostoievski seu ponto de partida.

Elif Batuman é conhecida por suas críticas ao ministro Erdogan e, mais de uma vez, identificou semelhanças históricas entre a Turquia de seus pais e a Rússia, dois impérios que se esfacelaram e que agora tentam se erguer das ruínas para formar um outro império com governantes autocráticos que perseguem seus opositores. Sorókin é odiado por Putin, a quem deu pouca importância no debate de ontem, classificando-o como um daqueles déspostas intercambiáveis que a história se encarrega de enterrar. “Putins vão e vêm, mas a literatura fica”, disse, para encerrar o assunto.

Tanto a Rússia como a Turquia vivem entre a Europa e a Ásia, sofrendo de uma espécie de esquizofrenia cultural que se reflete na literatura. Elif Batuman, autora de Os Possessos (Editora Leya), fala no livro de escritores russos que leu quando adolescente na casa da avó turca, em Ancara, narrando com humor experiências pessoais envolvendo suas atividades como acadêmica do Departamento de Literatura de Stanford, uma delas relatada na mesa de ontem. Ela viajou até a casa onde morou Tolstói na Rússia, atrás de pistas para sua tese sobre o possível envenamento do autor de Guerra e Paz. Não voltou com dados suficientes para convencer seus pares, mas ganhou o suficiente para continuar suas pesquisas. “Tolstói tinha muitos inimigos no clero, no palácio do czar e até entre seus seguidores”, justificou.

Sorókin não comentou. Ele é de tudo um pouco, de romancista a roteirista de quatro filmes, mas nunca tentou o ensaio literário. Seu negócio é demolir a megalomania russa. Em Dia de Oprichnik, inédito no Brasil, ele acompanha a patética trajetória de um “oprichnik”, homem de confiança do governo, numa distopia sobre a reconstrução do Império Russo. Sua arma em Dostoievski Trip, lançado no Brasil pela Editora 34, é o humor. O livro não define território, mas os sete personagens viciados em literatura (cinco homens e duas mulheres) discutem questões existenciais presentes tanto nos romances de Dostoievski como nos livros do fascista Céline. Sobrevivente da utópica cena undeground dos anos 1970, Sorókin diz que o totalitarismo do Estado soviético é reeditado na Rússia de Putin, sufocando novamente os dissidentes políticos. O escritor russo costuma parodiar o romance soviético, definindo-a como um “buraco negro” dentro da literatura russa. Usa a sátira, como no passado Bulgakov recorreu ao humor. “A Rússia é o Eldorado para qualquer escritor, pois é um país grotesco onde acontecem coisas que ninguém imaginaria inventar”. Nem por isso ele mistura literatura e política. “Você pode escrever um artigo para o ‘New York Times’, mas não usar a literatura como furadeira, pois não sobreviverá como sobreviveu Bulgakov”. Para Sorókin, duas coisas ajudam a literatura russa a se livrar da reputação trágica que tem: o humor e a vodca. “É por isso que temos tantos escritores alcoólatras”.

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