Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

'Vivemos uma tragédia humanitária', diz o escritor Joca Reiners Terron

Em 'O Riso dos Ratos', o autor transforma uma obsessão pessoal em um retrato do desmoronamento da sociedade

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 05h00

Um homem se fecha em seu apartamento, atormentado por dois males terríveis: uma doença terminal que corrói seu fígado e o instinto de vingança contra o homem que abusou de sua filha. Os dias passam, tornam-se meses, até que ele resolve sair. Ao pôr os pés para fora, o susto: o mundo outrora tranquilo e civilizado tornou-se o retrato do caos: a metrópole está completamente destruída, vítima de uma doença que aniquilou parte da população em seus primeiros surtos e deixou a comunidade esfacelada. Pior: sua moradia foi tomada e ele não tem para onde ir. O Riso dos Ratos, nova obra ficção de Joca Reiners Terron, lançada agora pela Todavia, é um convite ao pós-apocalíptico.

O homem, cujo nome não se conhece, empreende, então, uma odisseia em busca da filha e também do abusador. Com isso, envereda por uma nova sociedade, desoladora e marcada por guerras e milícias, que promovem chacinas, retrato de uma barbárie só encontrável na civilização séculos atrás. E, apesar de aparentemente se passar em um futuro incerto, a trama também se mostra assustadoramente atual, o que torna a sua leitura tão absorvente.

“Alguns leitores classificam o livro como distopia, mas não consigo enxergar a existência antes de uma utopia que tivesse fracassado, pois a única que teve aqui foi no período pré-colonização”, comenta Terron em conversa telefônica com o Estadão, desde o Ceará, onde se refugiou para enfrentar a pandemia da covid-19. “Na verdade, vejo como uma história contada ao contrário, ou seja, recuamos nos séculos, passando pela escravidão, pelos primeiros portugueses que aqui desembarcaram até chegarmos ao Brasil habitado apenas por indígenas e seu ideal de civilização que foi destruído.”

De fato, o caos mental do protagonista se confunde com o do passado e a anarquia de uma projeção de futuro – em sua cruzada em busca da filha, que Terron vê com um tom bíblico, o personagem se descobre em um mundo onde agora a violência assume o poder sobre a sociedade. E, como a noção de futuro foi abolida, resta aos homens se guiarem pelas suas lembranças, pelo seu passado.

“Tive as primeiras ideias dessa história em 2012, quando comecei a escrever um diário. Um problema de saúde, porém, me afastou por um tempo da escrita. Só que a ideia de ter alguma doença grave me apavorava e aí surgiu a semente da narrativa”, conta Terron. “Ao mesmo tempo, nossa sociedade passava por transformações, mas não percebíamos, em 2013, que o sonho dourado da democracia estava se desmilinguindo.”

Em seu diário, Terron usava uma voz irônica, que buscava entender os problemas sociais que sacolejavam o País, marcado por intensos protestos nas grandes cidades, que nasceram para criticar o aumento das tarifas no transporte público, mas logo se tornaram uma onda de revoltas contra a corrupção, custos da Copa do Mundo, problemas na educação e na segurança, e até mesmo contra a qualidade dos serviços públicos, entre diversos outros temas, com a população protestando contra os políticos, governistas ou não.

Apesar do farto material, Terron não encontrava a voz ideal para seu personagem e, por isso, deixou a história de lado, se dedicando a outras tramas – como A Morte e o Meteoro, de 2019, romance inspirado na perda do espírito comunitário, virtude essencial dos indígenas, e nascido em um jorro de raiva e urgência causado por sua exasperação com a atualidade. 

Foi na mesma época que ele decidiu retomar as anotações, motivado por uma questão: o que aconteceria com um sujeito que, de tão obcecado por um problema pessoal, não percebesse que o mundo ao redor tinha desmoronado? “Meu desejo de escrever o livro foi a sensação de que estamos retrocedendo, perdendo direitos sociais, vidas, uma sensação de que estamos a um passo da barbárie”, conta Terron, cuja indignação foi reforçada com o início da pandemia e o aumento crescente do número de mortos. “Vivemos uma tragédia humanitária.”

O Riso dos Ratos é marcado por um tom realista, com descrições detalhadas do sofrimento do personagem principal e daqueles que se aliam a ele, momentos de castigos e de provações cuja linguagem crua e, por vezes, escatológica, faz lembrar o poeta do fel, Augusto dos Anjos. E, em meio a tanta dor, o que se sobressai como resquício civilizatório é a obsessão do pai em encontrar a filha, da qual não sabe o paradeiro, mas dela espera sua redenção – nem a dura realidade ou as alucinações abalam seu intento. “A moça, sobre a qual pouco sabemos, é o coração moral do livro, pois sua busca desperta os sentimentos mais essenciais da natureza humana”, observa Terron, que escreveu um final luminoso, no qual o pai sofrido e desesperançoso descobre que o oposto da morte não era a vida, mas o amor.

Curiosamente, embora não aponte precisamente os locais da história, o autor dá pistas que ajudam na identificação. Assim, em sua caminhada por uma São Paulo destruída, onde os ratos tanto são rejeitados como também são opções de comida, o homem busca abrigo no que restou do supermercado Futurama localizado na Avenida Angélica (hoje falido, o mercado é um espaço desocupado), passa pelos escombros do Minhocão e se refugia, durante um tempo, no subsolo da estação de metrô Santa Cecília. “Aquele mundo já não era o de antes e muito menos o seguinte”, diz um trecho do romance. Na cidade que foi inteiramente envenenada, a única terra fértil é a dos cemitérios, onde são cultivados os alimentos que mantêm todos vivos. “Aí está também meu espanto com o apagamento da história da cidade.”

A produção do romance logo se revelou um desafio para Terron, que decidiu escrever à mão, preenchendo vários cadernos. “Escrevi todos os dias e enfrentava problemas como o da mão não ter a mesma rapidez na ação como meu pensamento. E, como minhas frases costumam ser longas, eu precisava ter a ideia sempre nítida para que não se perdesse o raciocínio no final. Foi um esforço doloroso – talvez por isso o livro também seja doloroso.”

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