ANL/Divulgação
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‘Vivemos uma situação de total promiscuidade no mundo do livro’, diz Bernardo Gurbanov

Presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Bernardo Gurbanov analisa a situação das livrarias no Brasil e relembra outros momentos que ameaçaram a sobrevivência do setor

Entrevista com

Bernardo Gurbanov

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2018 | 03h00

Argentino radicado no Brasil, para onde veio em 1977, durante a ditadura militar em seu país, Bernardo Gurbanov é filho de livreiro - seu pai fundou a Livraria Dante Alighieri, na região metropolitana de Buenos Aires, em 1966. É também livreiro e editor, proprietário da LetraViva, especializada em livros em espanhol. E é presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL). Gurbanov conversou com o Estado sobre a atual situação das livrarias no Brasil, país que deveria ter 20 mil lojas, mas que não tem mais do que 2.500.

O que representou o ano de 2018 para as livrarias?

Ele reflete o que aconteceu na sociedade: 2018 foi um ano de convulsões e de grandes emoções. Muitas mudanças e situações colocaram à prova nossa capacidade de adaptação. As duas maiores redes de livraria entraram em colapso. 2018 vai ser um ano difícil de esquecer, mas, ao mesmo tempo, foi um ano de aprendizado e de levar à sério nossa necessidade de se adaptar. A economia e a realidade mostram que as crenças não são suficientes para atravessar momentos de turbulência. É um momento de tomar contato com a crise econômica que se impõe e, ao mesmo tempo, com uma realidade de mudança de hábitos de consumo. 

Como sair dessa? 

Temos que voltar à origem - voltar a fazer o simples, o feijão com arroz na administração do negócio e repensar a comunicação com o cliente. Passamos por uma época de muita expansão - na economia e no modelo de negócio das livrarias que, a partir de meados dos anos 1980, adotou o modelo das megastores em shopping centers, onde havia uma demanda assegurada. Mas a realidade vai mudando e hoje já não é mais possível segurar, administrativa e financeiramente, essas estruturas gigantes mesmo porque os tempos mudaram também a maneira como a concorrência se dá. A concorrência vai avançando num nível fratricida e predatório do sistema como um todo. A livraria sacrifica parte do seu lucro, às vezes oferece um produto com preço abaixo do custo, para atrair o cliente. E isso tem um preço. A realidade é cruel e a conta uma hora chega. Durante muitos anos, o avanço do modelo de gigantismo funcionou, mas acabou deixando de fora as pequenas livrarias - e muitas acabaram fechando as portas. Nos últimos 10 anos, fecharam em torno de mil livrarias no Brasil. É muito para um país que deveria ter 20 mil, que teve no máximo 3.500 e está hoje com cerca de 2.500. Para sair dessa, será preciso fazer um ajuste muito severo e uma administração de custos de de preços. Não vejo, de imediato, a possibilidade de o projeto da lei do preço fixo avançar. Uma livraria pequena precisa de diferenciar mais do que nunca. Ela nunca poderá concorrer em preço com o comércio online. E ninguém vai comprar na livraria do bairro porque é amigo do dono. Vai comprar onde mais o convier. Essa livraria mais especializada, que tem mais intimidade com o cliente, vai poder oferecer um leque de outras leituras a partir de uma curadoria cuidadosa e da confiança que se estabelece nessa interlocução com o cliente. Essa é a força desse tipo de negócio.

As editoras têm alguma responsabilidade na crise das livrarias?

Sim. Quando começou a se desenvolver esse processo de hiperconcentração do varejo, e esse processo não é de hoje, naturalmente as editoras foram dando mais atenção, privilegiando e fazendo concessões maiores de desconto para essas redes. Tanto é que muitas editoras atendem diretamente as principais redes e usam distribuidores para o restante. Sobraram, assim, as migalhas, para o distribuidor. Houve, sim, um processo que eu chamaria de cumplicidade. É inevitável, como fornecedor, dar mais atenção a quem mais compra. E os fornecedores têm, de um modo geral, responsabilidade sim. Talvez levados pela crença de que organizações tão antigas e tão boas jamais entrariam numa situação complicada, continuaram fornecendo sem conseguir impôr limites. Querendo ajudar, houve tolerância com relação a essa situação, mas um acabou arrastando o outro. Todos os players estão conectados nesse momento. É preciso dizer que no mercado de livro ninguém sabe o seu lugar. Hoje, o autor pode editar seu livro e vender. É uma nova concorrência para as editoras. O ideal seria termos produção, abastecimento e venda, pelo varejo - excetuando as vendas institucionais e em feiras. Hoje, vivemos uma situação de total promiscuidade no mundo do livro. Mas como eu vou dizer a um editor que não está conseguindo vender, ou que vende e não recebe, que ele não pode vender por conta própria?

 

O modelo de consignação está em xeque?

O modelo em si é bom, mas tem que ser administrado com mais cuidado. Não pode ser usado de maneira irrestrita. Uma livraria não precisa receber todos os lançamentos de todas as editoras - ela tem seu público e suas características. Tem que ter uma escolha mais apurada do que é mandado para a livraria. E é preciso mais rigor no acerto, que deve ser mensal. Isso é responsabilidade da livraria. Milhões e milhões de reais descansando confortavelmente nas prateleiras das livrarias não reflete um um sistema sadio.

A Associação Nacional de Livrarias foi criada há 40 anos. Quais foram os foram os grandes momentos críticos para as livrarias brasileiras nessas últimas quatro décadas?

A rigor, existem momentos críticos que se apresentam em formatos diferentes ao longo do tempo. Um deles é o processo de transformação da comercialização do livro didático. Até o final da década dos anos de 1970 o livro escolar e universitário era comercializado exclusivamente nas livrarias. Durante a década de 1980 os supermercados começaram a oferecer esse tipo de livros sem respeitar o preço de capa, provocando um verdadeiro terremoto no setor, pois a maioria das pequenas e médias livrarias tinha nele a coluna vertebral que sustentava seu funcionamento durante o ano todo. 

Em paralelo, começa o processo de hiperconcentração do varejo, atualmente em profunda crise, com o surgimento das megas lojas. Em 1985, tem início o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que, embora se trate de uma ação social importantíssima, acabou tirando das livrarias uma parte substancial do seu faturamento. A década dos anos 1990 a sucessão de planos econômicos, a mudança de moedas e a inflação afetaram seriamente a estabilidade e o planejamento dos negócios do setor assim como da economia do país como um todo.

A partir da entrada no novo século, a transição para os meios eletrônicos de comercialização e relacionamento com o cliente estabelece um dos máximos desafios enfrentados pelo varejo do livro e põe à prova a capacidade de adaptação às novas tecnologias por parte das livrarias brasileiras.

 A chegada dos efeitos da crise financeira global iniciada em 2008 nos Estados Unidos, somada à crise política interna, alcança seu ápice no Brasil em 2014 provocando a maior recessão econômica de que se têm notícias no País interferindo de forma letal no dia a dia do comércio de livros.

Até o momento está em curso nossa maior crise, da qual nem o país nem o mercado livreiro conseguiram emergir ainda. Da mesma forma que a recessão se reflete na queda do PIB brasileiro, também torna insustentável a manutenção de estabelecimentos comerciais nos moldes tradicionais. 

A queda nas vendas somadas aos aumentos dos custos fixos levou ao fechamento de aproximadamente 20% do total das livrarias nos últimos quatro anos.

Quando foi feito o primeiro levantamento nacional de livrarias? Quantas livrarias havia nessa época, quantas apareceram no último levantamento e quantas devem existir hoje no Brasil?

O primeiro levantamento do número de livrarias foi feito em 2006, resultando em 2.500 a quantidade de pontos de venda ativos. O último levantamento foi feito em 2014, apresentando um número de 3.095 livrarias. Cabe ressaltar que em 2012 tínhamos 3.481 estabelecimentos. Atualmente, estimamos que o Brasil tem cerca de 2.500 livrarias. Portanto, retrocedemos a níveis equivalentes aos de 2006.

A atual crise das grandes redes é pontual, interna? Ou reflexo de algo pelo qual passa o mercado livreiro? Como avalia o momento e o que imagina que vai acontecer num futuro próximo?

A atual crise não é só das grandes redes. Trata-se de um processo iniciado na década de 1980 que conjuga a tendência econômica à hiperconcentração com o advento das novas tecnologias e as novas modalidades de consumo delas decorrentes. As decisões estratégicas tomadas nas empresas hoje podem se tornar obsoletas amanhã, tal é a velocidade da evolução dos formatos de negócio atualmente. Temos denunciado oportunamente o caráter perverso da hiperconcentração e os resultados estão aí, na frente de todos. Contrariamente ao que se admite, o único vetor a considerar na administração do negócio não é o preço final do produto. A partir desse conceito, estão sendo praticadas políticas de concorrência que acabam por eliminar de forma, no mínimo questionável, o número de possibilidades e opções de compra para o leitor. Existe de fato uma crise intra-setor editorial e livreiro, principalmente no varejo físico devido às novas formas de aquisição de produtos. Temos que considerar também que não há ainda um mínimo regulatório da atividade que permita ao menos coibir a concorrência predatória. Entendemos que o momento é crítico para o setor e que é justamente a partir da necessidade que cada empresa buscará as soluções adequadas para sua subsistência.

Quais são as demandas atuais do setor?

Reivindicamos de longa data um marco legislativo que regule minimamente as atividades do setor, sem eliminar a livre concorrência.

 As livrarias foram mudando ao longo dos anos. Como deve ser a livraria do futuro?

A livraria do futuro terá de encontrar seus melhores caminhos para dar respostas adequadas às novas demandas do consumidor, preservando a ética, inovando permanentemente e testando sua capacidade de adaptação.

É otimista?

Sou otimista buscando inspiração na filosofia de Voltaire, admitindo que o mundo não é perfeito e que o nosso jardim deve ser cultivado com trabalho e inteligência. Como livreiro que se preza, recomendo a leitura da obra Cândido ou o Otimismo, escrita por Voltaire em 1759.

 

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